Ícaro
by Alex LunaPara quem eu faço todo este teatro? Acho que preciso chegar à conclusão que é melhor aceitar a verdade e seguir com a minha vida. Não interessa, afinal, quem tomou a decisão, nem a hora, nem a razão. Quando não existe solução para o problema, temos que aprender a conviver com ele, pelo menos até que ele nos mate.
Na estação de trem, ele foi embora, levando meus sonhos, a esperança e uns planos de longa data. Eu, muda, deixei. Ou tentei impedir, mas sem muitas palavras. Que poderia ter dito para prende-lo? Existem essas palavras mágicas?
Não vou dizer, porque seria mentira, que eu não tive culpa, que ele foi cruel, que ele errou sozinho. Preciso assumir que o acompanhei por vontade própria, e sabia de todos os riscos. Ninguém me deu asas, eu as construí. Eu as coloquei em marcha.
Quando ele foi embora levando a minha alma, me deu o melhor presente que eu já recebi em toda a minha vida. Tenho todas as lembranças boas do mundo. A memória é o maior tesouro de um ser humano, creio, e a minha está repleta de coisas boas. Infelizmente, agora vivo somente do que lembro, e o que me aparece de novo na vida não chega a superar minhas recordações.
Infelizmente, tudo que restou foram memórias. E, se não as escrevo, em breve não restará nada. E sabemos que nada é muito pouco para tudo o que fomos.
Juntos, voávamos. Sorríamos somente ao nos ver. Um simples bom-dia era suficiente para fazer uma semana ser perfeita. Não tínhamos uma música. Tínhamos todas. Quando estávamos longe, eu passava o dia narrando mentalmente para ele tudo que me havia acontecido, contando todas as coisas que poderiam lhe interessar, tentando não esquecer nenhum detalhe. E sabia que ele ia me ouvir. E ia sorrir e adorar aquela conversa.
Acho que para ele era igual.
Sempre o guardei no lugar mais especial do coração. E sempre vou guardar. Daqui, com certeza, nunca deixarei que ele saia. Mas tudo que a gente guarda, perde. Assim é a vida.
Saí de casa aquele dia achando que, à noite, quando voltasse, tudo estaria igual. Como havia acontecido milhares de vezes antes. Como deveria ser.
Consegui subir tanto na minha felicidade, alcançar um apogeu tão alto, tão extremo, tão difícil, que, lá de cima, o mundo me parecia pequeno, simples, fácil. A vida era gostosa e descomplicada. Não andava, voava em céu de brigadeiro. E, lá de cima, não queria descer nunca. E eu sempre quis mais. Com ele ao meu lado, sentia ter energia para amar e viver cada vez mais. E fui. Continuei, até o final.
Nada mais distante da realidade.
Quando cheguei, tudo estava virado.
Porque, como tudo na vida, acaba. Do nada, como um terremoto que destrói toda a cidade e deixa todos os seus pontos de referência espalhados por aí, sem ordem, sentido nem direção, ele voou em outra direção.
O diálogo, como deveria ser, foi ridículo. Foi estúpido. Foi triste. Deprimente. Surreal. Tétrico. Da mesma maneira que eu não sei descrever o bom que foi, também não encontro palavras para definir o sofrimento.
Sem apoio, sem ar, sem um sorriso que me dá forças, caí disparada em direção ao solo. A queda livre me assustou. Depois, ficou agradável. Queria sofrer, queria cair logo, me estabacar no chão, explodir. Logo, tive medo, e implorei para parar de cair. Gritei seu nome, mas ele não me ouviu, ou me ignorou. Talvez tivesse pena, mas ignorou. Continuei caindo. Tentei me distrair na queda, desviar em outra direção. Mas tinha que cair. Era o trajeto obrigatório, antes de tentar começar a voar outra vez.
A pior parte da viagem é que a queda é infinita. Não há solo para frear. Enquanto não conseguir vencer outra vez a gravidade (e para isso necessito energia própria e que alguém me ajude a começar o vôo), nunca deixarei de cair.
Se ele não tivesse me feito começar a voar, eu não cairia. Algumas vezes, pensei que seria melhor não ter arriscado ganhar, porque quem não ganha também não perde. Se eu tivesse sido covarde e não arriscado, ele não poderia ter cometido a covardia de me deixar em vôo solo.
Por quê começar um amor? Para quê deixá-lo crescer? Não escolhemos quando nos apaixonamos, mas podemos escolher não nos apaixonarmos, não é verdade? É possível evitar o sofrimento guardando o coração numa caixa de chumbo e ignorando suas pancadas, antes que se tornem fortes demais.
Melhor não. Os dois maiores defeitos de caráter que uma pessoa pode ter são a timidez e a covardia. Estes, não quero para mim. Ter medo de viver é morrer mil vezes. Então, prefiro enfrentar a vida de peito aberto, coração rasgado e cheio de cicatrizes, olhos baços de tantas lágrimas e um sorriso triste do que lutar para evitar a dor.
Hoje, eu me sinto como se tivesse olhado para o Sol com meus próprios olhos. Foi a visão mais linda de toda minha a vida, a mais maravilhosa. Arrependimento, nenhum. Apesar de não enxergar mais, a imagem que tenho guardada nas minhas retinas cegas é a mais bela de todas.