Desarticulação
by Alex LunaNo final da tarde, a lancha ancorava num pÃer quase escuro. A casa já estava acesa, esperando o dono e seus convidados. Na quinta-feira, o deputado havia ligado avisando ao caseiro que preparasse tudo. Chegaria na sexta e receberia visitas no sábado. Teria tempo, então, para refrescar a cabeça e decidir o que iria dizer aos hóspedes.
A travessia até a ilha era curta, cerca de vinte minutos, desde a marina onde guardava a lancha. Aproveitara que na sexta não trabalharia para voltar logo para sua casa, seu refúgio, que raramente podia visitar, mas era o único lugar do mundo onde conseguia um pouco de paz. Um pouco de sol, quase nenhuma comunicação com o exterior e a tranquilidade dos isolados do mundo. Sem c”meras, repórteres, inimigos polÃticos, votos, debates, necessidade de dinheiro. Uma trégua do jogo durÃssimo que consumia todo o seu dia-a-dia.
Tinha pouco mais de trinta anos, o deputado, mas já possuÃa um grande patrimônio. Administrava sua herança muito bem, seu salário melhor ainda e enriquecera na polÃtica. Poucas vezes pensava em gastar dinheiro, mas era realmente um especialista nas relações humanas, nas discussões intermináveis de uma assembleia, nas milhões de propostas, pactos, acordos e alternativas viáveis e inviáveis que vivia envolvido. Dormia e sonhava pensando no que iria fazer, estava tão feliz de terno e gravata discutindo o gasto de milhões numa obra pública quanto afrouxando o colarinho e arregaçando as mangas numa festa regada a uÃsque e mulheres depois do trabalho. Claro, o assunto era sempre o mesmo.
Ao seu redor, assessores, amigos, conselheiros, inimigos infiltrados. Tinha plena consciência de todos eles, e sabia que tudo isso fazia parte do jogo. Tentava controlá-los, era manipulado, enganado, trapaçava, discordava. Não conseguia se imaginar operando um fÃgado, construindo uma ponte, ensinando religião. Sua paixão era o ser humano, suas incoerências, o debate e a discussão. O resultado, se viesse, era um prêmio, embora raramente acontecesse.
Sua noiva era sobrinha de um colega de Casa. Não tinha como não ser. Conhecera em algum evento social, já se viram nas colunas de jornal, as famÃlias trocaram milhões de referências antes de qualquer aproximação, seguindo a tradição secular de garantir a procedência, como se no Nordeste também houvessem linhagens nobres e casas reais. Depois de tudo ter acontecido como manda o protocolo nunca escrito e sempre cumprido das castas governantes, o namoro ter durado um bom tempo e as notÃcias polÃticas terem aliviado, havia chegado a hora de marcar a data.
Conversaria com o tio da noiva, decidiriam que empresários, polÃticos e sobrenomes seriam os padrinhos, convidados de honra e outras figuras importantes. O Governador estaria presente? E a oposição, franca-favorita ao governo em dois anos? Sua filiação partidária influenciaria bastante na lista de convidados, mais do que as amizades. Claro, os amigos entenderiam a necessidade. Seria um investimento.
Comeu rapidamente e abriu o uÃsque. Foi para a beira da praia com a garrafa, sozinho. A lua, fraca, deixava que as estrelas brilhassem. A casa estava toda acesa, apesar de que o caseiro e sua esposa já tivessem ido dormir. Longe, no horizonte, a praia continental, com pequenas luzes acesas. Ao sul, o clarão da cidade. A grande capital, onde, quem sabe em vinte anos, não seria o prefeito. Ainda havia tempo.
“€˜O grande problema da polÃtica’, pensava ele, “€˜é a cadeia. Tanta gente ao redor, tanta gente relacionada, interligada, por meio de relações de trabalho, contatos, contratos, negócios, acordos e parentesco, que nunca poderia se renovar completamente. E também por isso, ninguém pode ser posto para fora ou sair de livre e espont”nea vontade. Uma cadeia de gente, que a todos interliga e também prende.’
Ali, na praia, quando estava só, pensava se realmente gostava daquela vida. Sabia que não poderia viver de outra forma, sem a agitação, a correria e stress envolvidos. Deitado na areia, pensava que poderia trabalhar menos, ou pelo menos ter um trabalho que pudesse ser desligado depois que saÃsse. Sempre, e a qualquer hora, havia alguém querendo falar com ele, tentando discutir algo. Se fosse vendedor, estaria livre quando saÃsse da loja. Em compensação, talvez não ganhasse tanto. Se fosse um executivo, sim. Mas não teria o poder. Tudo bem que dividido entre várias pessoas, mas ainda assim, era alguém importante.
E divagou por algum tempo.
Não tinha idade para se sentir realizado na vida, nem motivos para isso. Poderia chegar muito longe profissionalmente. Daria um passo muito importante na vida pessoal. Constituiria famÃlia, manteria a dinastia que, provavelmente, veio das caravelas. A noiva era uma ótima pessoa, seria uma mãe ideal, e nunca iria saber de nenhum caso dele. Não precisava. Ele já conhecia o suficiente da natureza humana para saber que não era necessário nenhum envolvimento emocional com outra mulher que não a esposa. E a vida seguiria, perfeita, redonda, tudo articulado.
Da mansão na ilha, o apartamento funcional, depois uma fazenda, viagens ao exterior, carros. Fazendo as ligações corretas, chegaria lá, alcançaria tudo. Não tinha pressa.
Foi dormir quase ao amanhecer. Acordou com a água molhando os pés, da maré que subia. Foi acordado pelo caseiro, avisando que a noiva e a famÃlia dela estavam chegando em uma lancha.
Vestiu-se, desceu e ficou esperando. Enquanto ajudava os convidados a desembarcarem, pensou pela última vez em como iria fazer para desmanchar o noivado sem criar inimizades polÃticas, destruir a opinião pública, perder vários amigos e ganhar alguns inimigos. Era muita coisa em jogo, numa decisão que ele tinha poucos instantes para tomar, e anunciaria a decisão em algum momento daquela tarde, ou em particular numa conversa com ela, ou em público, solenemente, no jantar.
Aceitando, estaria preso à estrutura, à s ligações sociais e à famÃlia até que o divórcio os separasse. E este custaria muito, em todas as esferas. Se não casasse, depois do noivado, também perderia muito. Não conseguia avaliar o que era mais importante.
Queria os laços, que lhe trariam imensas vantagens, inclusive ela, que ele não podia negar que adorava. Mas não queria estar preso à convenção, às pessoas ligadas a ela, à toda cadeia alimentar social.
Foi a pior negociação de sua vida, a mais dura e extenuante, e ele a travou só, enquanto discutia amenidades, divertia os convidados na praia deserta e trocava beijos e carinhos sociais com a noiva. Não transpareceu nenhuma vez o conflito da direita com a esquerda, a revolução e o conservadorismo, a anarquia que quase tomou o poder de sua cabeça.
No começo da noite, jantando na grande mesa da varanda, ele a pediu em casamento. Sorriso, alegria e júbilo para todos. A tradição venceu, mas ele sempre poderia voltar à praia e aos pensamentos que teve durante aquela noite da véspera, sonhando que poderia ter sido diferente.