Agradando Nossos Pais

Toda criança tenta agradar seus pais. Faz o que eles pedem, obedece suas regras, se comporta, lava bem o umbigo.

Essa obediência nos ensina muito e garante nosso crescimento saudável e seguro até um certo limite.

Quando queremos crescer mais, nos desligamos dessa obrigação em relação a eles (ou pelo menos deveríamos).

Esse corte é muito saudável, mas ele causa uma crise de abstinência brutal porque deixamos de receber as recompensas do reconhecimento deles. E esse reconhecimentonos nos dá muito prazer e segurança.

Deixamos de depender de nossos pais e passamos a procurar a recompensa na validação vinda de outras pessoas. Buscamos aceitação dos amigos com quem tomamos cervejas, das meninas com quem namoramos, dos professores e das pessoas com quem trabalhamos.

Esse hábito é bom e agradável, nos ajuda a construir laços, nos proteje.

Porém ele possui um efeito colateral.

Ele pode servir de desculpa para nos acomodarmos, pra fugirmos da responsabilidade que temos com o que acontece conosco.

Nós temos uma resistência natural em assumir essa responsabilidade, porque exige que encaremos também falhas, erros, problemas, limitações e frustrações nossas. É como arranhar nossa auto-imagem. Quando a responsabilidade é nossa e esses obstáculos se apresentam, não temos mais ninguém para culpar fora nós mesmos.

Se eu segui um caminho e acabei num beco-sem-saída, fui eu que errei.

Mas se em algum momento não estivermos fortes o suficiente pra enfrentar essas dificuldades, o fato de estar fazendo algo para agradar uma outra pessoa retira a responsabilidade de nossos ombros.

Ninguém lhe criticaria por estar ajudando seus pais, fazendo algo que eles lhe pediram. Mesmo que o resultado dê errado, você é uma pessoa bondosa e generosa.

O alívio de ter alguém dirigindo por nós pode se transformar em comodismo.

Quando é o outro quem decide por onde será nosso passeio, acabamos nos acomodando e não exploramos caminhos diferentes.

Foi ele quem decidiu vir por aqui,  e por isso atolei.” Pôneis malditos!

Nas empresas, onde a hierarquia e títulos já existem pra atrapalhar a autonomia, a possibilidade de se fazer o que os outros mandam é mais um casco onde as tartarugas podem se esconder. É fácil de se reconhecer em qualquer empresa a pessoa que se esforça muito, que vive atarefado, se incomoda com isso, mas que nunca abre a boca para sugerir uma forma de se aliviar.

É fácil se ocupar com as tarefas que essas outras pessoas nos passam. às vezes é até agradável, e nos esforçamos especialmente para terminar uma tarefa se ela vai agradar nossos pais ou se ela vai agradar nosso chefe.

Só que essa facilidade pode servir de fuga.

E aí o comodismo vira uma fronteira que limita nosso desenvolvimento. Se não contribuirmos ativamente na nossa caminhada, os outros definirão o quanto cresceremos.

Só tou fazendo o que me mandaram“.

Essa frase é uma justificativa muito fraca pra quem já completou o ensino médio, pois deveria ter um pouco de autonomia e iniciativa.

2 Comments on “Agradando Nossos Pais”

  1. É mais fácil dizer “a culpa é dele” do que “eu errei, me desculpe”… Realmente, pessoas que jogam muito a culpa nas outras se mostram mais incompetentes do que a pessoa que eles estão culpando…

    1. Anna,

      Você acabou de quebrar todos os recordes de rapidez na leitura de meus posts. Obrigado! 🙂

      E você também compreendeu exatamente o sentido do texto. Jogar a culpa nos outros é mais fácil mas mantém a gente preso num comodismo.

      Muitas vezes a gente faz isso de modo passivo quando tentamos ser generosos. Essa desculpa de estar agradando os outros dificulta que a gente perceba que tá delegando as responsabilidades.

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