São só palavras: teço, ensaio e cena
A cada ato enceno a diferença
Do que é amor ficou o seu retrato
A peça que interpreto
Um improviso insensato
Legião Urbana, Os Barcos
A opção fácil e menos dolorosa
Pra você não chorar, nós podemos não nos encontrarmos. A cidade é grande o suficiente para que duas almas nunca cheguem a compartilhar o mesmo ar.
Um caminho revisionista do passado
Eu poderia te ligar e marcar para te encontrar pela manhã. Me dirias que não teve aula e foste embora cedo. Ou me encontrarías no estacionamento, eu com uma camisa branca. Ao invés de um fim de semana de sonhos, me darias as tuas lágrimas.
Saboreando lágrimas
Para evitar que chores em público, virás à minha casa e eu te prepararei um jantar. Com um sentido de tempo espetacular, chegarás na hora de me ajudar a cortar as cebolas e disfarçar o choro.
Olhos marejados
Num domingo à tarde, te esperarei na praia. Sentado no calçadão, deitarás no meu colo, e só eu verei teus olhos marejados. E fingirei que foi um grão de areia.
Jantar choroso
Há lugares onde casais vão para começar ou acabar relacionamentos. Luz de velas, música baixa, distância entre as mesas. Sentaremos no canto, conversaremos discretamente, e ninguém verá a tua maquiagem borrada.
Um espetáculo
Parece estranho, mas se formos ver alguma apresentação dessas que emocionam, ou de gente que vem pela primeira vez à nossa cidade e nunca mais voltará, podemos entrar e encontramo-nos discretamente. Tu podes emocionar-te olhando pro palco, enquanto eu te abraço, durante uma canção triste ou um solo de guitarra. Provavelmente todos estarão fazendo a mesma coisa.
A porta da sua casa é um ótimo lugar para chorar
Chego à tua porta, toco a campainha, sento nos degraus e te espero. Podes sentar-te ao meu lado, esconder o rosto entre os joelhos e falar tudo o que tens a dizer entre soluços. Eu posso afagar-te o cabelo e dizer coisas bonitas.
Segurar as lágrimas dá trabalho
De repente, entras na sala de reuniões e eu estou ali, sentado, esperando-te para discutirmos coisas. Discutimos, e na pausa do café, vais discretamente ao banheiro. Fingimos que ninguém sabe o que aconteceu.
A nossa história parece um filme
Vamos a um filme água com açúcar. Prometo chegar atrasado. Sentamos juntos, você encosta a cabeça no meu ombro e finge que o galã morre no final.
A dor, quando dói, ninguém segura
Nos encontramos à porta de um hospital. Eu digo oi, começas a chorar. Entramos pela sala de emergência. Eu digo à primeira enfermeira que aparecer que você precisa de um analgésico, bateu a cabeça saindo do carro. Depois do raio-x, já estará suficientemente calma para sair andando pela porta da frente, impávida.
Pronto. Passou.