sinto informar, mas todo ser humano pode voar. somos pássaros.
mas pássaros precisam pousar, e bem, na hora do pouso, não voamos.
eu acredito em todas aquelas metáforas clichê ridículas de
ensinamentos zen budistas: somos onda, vamos e voltamos. é preciso
ressaca se temos ondas grandes, é preciso mar calmo depois da
tempestade, e do mesmo jeito, é preciso tempestade pra ter mar calmo.
tenho uma frase em forma de imagem pronta pra ser tatuada: nós
precisamos deixar um porto para chegar a outro. navegar. e no meio da
jornada, enfrentar tudo o que envolve a navegação. maremotos,
calmaria, pescaria, terra a vista, escorbuto e desespero. e chegar a
praias desconhecidas, ilhas virgens, continentes povoados, canibais e
Índias.
o que nos aprendemos de errado da ficção não é que não temos mas
gostaríamos de ter superpoderes. nós temos superpoderes. garanto,
tenho certeza que um cara já te olhou nos olhos e te fez flutuar (se
não fez, por favor, arranje alguém que faca isso urgentemente, é o
melhor da vida). o que a ficção até ensina, mas que a gente faz força
pra negar é que os superpoderes não funcionam o tempo todo.
kryptonita mata o superhomem, e ninguém pode ser invencível o tempo
todo. o barcelona perdeu anteontem. ayrton senna morreu. eu não sou
perfeito. ninguem o é.
há uma historia maravilhosa escrita pelo frank miller que, salvo
engano, chama-se Cavaleiro das Trevas. é a melhor historia do batman
de todos os tempos. mas o enredo principal não é do batman, mas do
superhomem. ele entrega ao batman, logo no começo da amizade deles, um
anel com a ultima pedra de kryptonita do universo. poderia tê-la
destruído, mas ao invés disso, entrega para o cara que ele considera o
herói mais integro de todos, para que, se algum dia ele, superhomem,
se torne louco, seja controlado por aliens ou qualquer coisa assim,
alguém o possa destruir..
então o superhomem, décadas depois, com o batman aposentado, vira o
fantoche de um governo fascista americano. e o batman volta da
aposentadoria para enche-lo de porrada.
o dilema moral é este: a vida não pode ser perfeita, não deve ser
perfeita. tem que ter dor, sofrimento e incapacidade. o inferno é a
incapacidade de sair do sofrimento, de aprender com ele, e no dia
seguinte, voltar a sorrir e criar algo bom.
eu tenho pena de quem não ama mais, de quem aposenta o coração depois
de uma decepção.
acho lindo quando alguém leva um chifre olímpico, fica viúvo, é
abandonado, e então se afunda num bar, toma um porre homérico e acaba
cantando Evidências. passa quatro dias em coma no hospital e depois
volta.
o importante é, depois do luto, voltar a viver.
nunca, nunca mesmo, virar a viuva Perpétua. esta sim, é a grande
amarga, a grande perdedora da vida.
a que não consegue nunca aprender que, depois da tempestade, vem a bonança.
mas a vida sempre terá tempestades.