Beba a sua vida

Posted by tarrask on July 26, 2013 · 7 mins read

História real, personagens reais. A interpretação é a minha, na época, criança.

Catabi se jogou da ponte por não ter o amor de Margarete. Foi o ponto alto da festa de natal, causou o maior alvoroço do mundo e até agora permanece inexplicado. Longe de mim tentar entender a cabeça daquele infeliz, destruída por anos e anos de excesso de álcool, má alimentação e rejeição social.

Ele é um daqueles bêbados que tem entre vinte e muitos e trinta e poucos anos, mas cujo rosto é cheio de marcas e rugas, e que carrega uma desesperança triste nos olhos. Vive por aí, comendo na casa de um, na casa de outro, pegando manga no meio do caminho, voltando para a casa da mãe, sendo enxovalhado, tentando se ajeitar e arranjando um emprego, até o salário permitir pagar a conta do bar e pendurar de novo mais uma cachaça. Foi internado algumas vezes em clínicas de recuperação, em hospícios e em hospitais por várias razões. Mas, como nunca conseguiu ganhar dinheiro suficiente nem para beber, sempre em instituições públicas, essas filiais do inferno administradas sempre superlotadas, cujos funcionários só podem escolher entre o desespero de não poder ajudar e o sadismo de não se importar.

A saúde desses bêbados de interior é um contra-senso até para a própria natureza. Raramente se alimentam, nunca de refeições decentes. Vivem sob o sol abrasador do Nordeste, com todo o suor, poeira e sujeira. Água de açude, riacho, cacimba, suja o suficiente para fazer um cidadão urbano de classe média ter ânsia de vômito. E, mesmo assim, têm uma capacidade de beber maior que a de qualquer alemão. Álcool suficiente para embriagar metade dos foliões de um carnaval fora de época é apenas o início para esse tipo humano.

E Catabi, pelo que lembro, era um desses. Onde caía, dormia, numa região onde haviam poucos crimes e todos o conheciam. O risco maior era ser acordado por moleques jogando água, infernizando. Levantava, buscava algum lugar para arranjar um pão, e voltava para o bar, na esperança de encontrar alguém que lhe pagasse mais umas lapadas.

Margarete trabalhava no posto telefônico, numa época remota que telefonia era complicada, cara e difícil. Ligava aquele lugarejo ao mundo, ganhava um salário da prefeitura, uma fortuna para o padrão local, e esperava um noivo para construir sua vida. E não via nenhum futuro em Catabi.

O rejeitado sempre perguntava, bajulava e implorava, e sempre ouvia a mesma negativa. Não, nunca, jamais. Sabia perfeitamente, e talvez por isso, bebia desesperadamente, como se a vida dele fosse só ela.

Quando acordava, provavelmente, não lembrava a negativa, e ia feito vira-latas procurar mais uns restos para continuar vivendo, na esperança de ser um bom cão e conseguir um bom osso, que era o amor dela.

E era rejeitado de novo.

No auge do verão, o calor infernal do lugarejo entre uma serra e um monte onde corria o rio esquentava como se fosse explodir. O povo se preparava, comprava roupa, enfeitava tudo, para a festa de natal. Punha um parque na frente da igreja, ia assistir a missa e depois iam correr na roda gigante, nos carrinhos, nas barraquinhas de tiro e na roleta de times de futebol. Os moços e as moças ficavam naquele vai-e-vem, os meninos corriam de um lado para o outro, os animais se misturavam, as velhas fofocavam depois do sermão do padre e os adultos dançavam ao som de Roberto Carlos.

Margarete, como as outras, ignorava os bêbados, e tentava saber seria o seu homem entre os rapazes da festa. Catabi, acompanhado de outros perdidos como ele, na frente do pequeno bar, bebiam, reclamavam e sofriam. A alegria daquela noite não era para ele. A felicidade nesse mundo não era para ele.

Então foi andando até a pista, e continuou. A ponte ficava a menos de vinte metros do pavilhão onde os casais dançavam. Ligava um pequeno vão de alguns metros onde o rio corria quando cheio, e onde agora só passava um fiapo de água que sobrevivia o verão. Do alto da ponte até o leito seco do rio eram menos de quatro metros. E ele, bêbado, só e triste, achava que era melhor acabar logo com isso tudo. Saltou para o nada e foi tragado pela escuridão.

Alguém deve ter visto, e então começou a correria. Lá se foi gente buscar lanterna, tentar trazer vela, descer lá embaixo para ver se estava bem, chamar alguém que trouxesse um carro e leva-lo para um hospital. Em pouco tempo, todo mundo já sabia do ocorrido, a música já tinha parado e a festa estava suspensa.

E todos que não estavam próximos do local começaram a discutir. ‘Catabi caiu da ponte’, ‘virgi’, ‘não, ele pulou’, ‘o que aconteceu?’, ‘prumodi?’, ‘ele tava salvando um menino’, ‘ele tá doido’, ‘ele é doido’, ‘isso é que dá beber’, ‘ai, meu são jisuis’, ‘esse povo bebe muito’, ‘deveriam proibir’, ‘é dessa vez que ele se acaba’.

Chegaram lá embaixo, quatro cabras fortes trouxeram ele para cima, ainda vivo. Botaram dentro do carro, que partiu escuridão adentro para salvar o pobre-diabo. E a festa recomeçou, sem o brilho de antes, com um buxixo infernal sobre o que tinha acontecido e o que seria dele no futuro. Começa a especulação sobre a pobre Margarete, que não aceitara o amor e quase causara uma tragédia. E se tivesse caído na pedra que tinha do lado? Talvez o encontrassem todo destroçado. Pelo menos, estava inteiro e seria levado ao hospital, mas ninguém sabia se ia sobreviver ou não. A moça desistiu da festa. Não que houvesse mudado de opinião, nunca casaria com ele. Mas tinha pena. Ninguém precisava passar por isso. E assim terminava a festa de natal.

Mas o que marcou mesmo foi um comentário ouvido naquele dia:

  • “Aquele bicho era tão ruim que caiu no macio.”