So in a manner of speaking
I just want to say
That just like you I should find a way
To tell you everything
By saying nothing
Tuxedo Moon, In a manner of speaking
Era uma vez uma garotinha que necessitava. Ainda não havia descoberto o quê, mas buscava algo que fizesse a vida seguir o rumo certo, talvez uma bússola, talvez uma fórmula, talvez um objeto. Sabia apenas que carregava um vácuo que nunca havia sido preenchido. Não era a revolta, não era uma resposta violenta ao mundo, às pessoas, às leis que regiam a sua vida. Ela apenas não sabia o que buscava, mas havia de encontrar. Alguma coisa urgentemente.
Andou todo o dia e toda a noite, subiu e desceu ladeira, viu pessoas na rua, riu quando alguém tropeçou, afinal, é humano rir da desgraça alheia. Não esqueceu de rir de si mesma, afinal, nem ela mesma se levava a sério. Perguntou, procurou, falou e escreveu, se orientou e se perdeu, mas não encontrou.
Ao seu redor, todo mundo tinha algo para oferecer-lhe: uma fórmula, um conselho, uma dica, um pássaro mágico que adivinha o futuro e conta o porvenir. Ela teve medo de saber o que iria acontecer, mas também curiosidade. Mas alguém lhe disse que o melhor da vida era a surpresa de não saber o futuro, e que bom mesmo era aprender ao largo da trajetória. Ela se sentiu uma bala, um tiro, uma arma mortal. Nasceu com um disparo em direção ao médico, depois se arrependeu e chorou. Desde então, seguia bala-perdida em busca de um alvo desconhecido. Erraria? Acabaria numa parede qualquer? Ou melhor, alojada no crânio (ou no coração, para pensar mais poético) de alguém. E esse alguém merecia um disparo mortal? Se fosse uma bala, preferiria acabar seus dias no coração de um assassino, um psicopata qualquer, ou no coração cheio de amor de uma pessoa inocente?
Pensou na carne rasgada, nos músculos lutando por bater, mas sem o oxigênio que lhes dá força, matando o corpo sufocado. Os próprios responsáveis por distribuir o gás afogados em sangue carbônico. Por aí, pelo ar podre que saia das veias, saía também o espírito, a pureza e a vontade de viver do inocente. Ou então sairíam as maldades e loucuras do assassino.
Será que ela deveria assassinar alguém? Ou protestar contra a violência que cotidianamente destrói as pessoas por dentro? Odiava viver presa, e sabia que todo mundo vivia assim. Apreensivos de serem vítimas, se escondem e se trancam com medo, atrás de grades, números ocultos no telefone, falsa falta de memória na hora de telefonar de volta para oferecer uma palavra amistosa ou um sorriso através do telefone, esta máquina infernal de unir pessoas à distância, mas que também só serve para mantê-las longe. “Oi, liguei para saber que você está bem, porque eu não posso perguntar pessoalmente. Agora, se você gosta de mim, fique cinco minutos desfrutando da minha ausência.”
Pensou no ótimo que seria fazer um protesto contra a solidão. Juntar todos os seus amigos imaginários, fazer cartazes com frases de efeito e sentar-se com um café numa praça, vendo as pessoas passarem e não entenderem nada. Se colocasse um chapéu no chão, ainda poderia ganhar dinheiro. As pessoas pagam qualquer coisa para que ninguém as lembre de quão pequenas são as suas vidas.
Provavelmente iria propor esse protesto na próxima reunião na casa da árvore. O problema é que ela nunca conseguiu terminar de construir a casa. Quando cortaram a árvore, para proteger as vigas da casa, foi a mesma época que caíram as estruturas da família. Então, ela decidiu desistir das raízes, e passou a morar dentro de um balão. Cada noite dormiria em um lugar diferente, procurando encontrar o amanhecer mais bonito do mundo. Quando encontrasse, iria derreter e escorrer pelo balão, chovendo neste lugar e transformando-se nas plantas. Aí criaria suas raízes. As últimas. O lugar de onde nunca mais sairía, sendo acordada todos os dias pelo sol mais bonito. Se pudesse escolher, seria uma planta, dessas pequenas, que não chamam muita atenção, mas que cheiram bem e todo mundo gosta. Era tímida demais para ser rosa, fraca demais para ser árvore e boa demais para ser planta-carnívora. Até gostaria de ser rosa por um dia, desejada pelas mulheres, objeto de disputa dos homens e nome de guerra. Queria ser uma planta-carnívora alguns dias, nesses dias em que todo mundo parecia querer devorá-la, digerí-la e acabar com ela. Queria ser árvore todos os dias, aguentar o vento, o sol e os namorados que riscam corações apaixonados, e proteger todo mundo que se abrigue debaixo dela, mesmo que a rasgassem como prova de amor a outra.
Poderiam proibir as facas. Ninguém mais mataria outra pessoa, nem descascaria cebolas. Seria a melhor maneira de acabar com as lágrimas, e então as plantas-carnívoras morreriam secas. As lágrimas foram inventadas para molhar as plantas-carnívoras. Se ela fosse um tiro, e na trajetória encontrasse um coração mau, gostaria que este fosse devorado por uma planta-carnívora. Então, ao redor dela, nasceriam outra flor. Uma flor chamada amor-perfeito.
Saiu de casa na sexta-feira à noite buscando encontrar, no fim da semana, o início da vida. Ou um novo final, para começar bem a semana. No relógio, que nunca parava, uma hora que já passou, e daqui a pouco voltará, diferente como o rio, mas igual a sempre. Mudava e seguia igual, eternamente.
Dormiu. Apagou o cérebro e acendeu o coração, viu histórias, conversou com vivos e mortos sobre o futuro que já passou, perdeu a noção do tempo, lembrou que já tinha sonhado este sonho e então pensou em alterar a história. Conseguiu. Se fosse um sábio chinês, iria trazer de volta este poder para usá-lo quando estivesse desperta.
Um dia, a garotinha acordou, e viu que havia se transformado em borboleta. Pensou que Kafka era um azarado, e riu tão alto que não conseguiu mais voltar a dormir. Então passou o dia inteiro voando de flor em flor, embelezando os amores-perfeitos, esperando o por-do-sol mais bonito da sua vida e tentando evitar que aquele dia fosse arruinado por uma planta carnívora.
Mas tergiverso.
Para Priscilla, Que sonha bonitos sonhos Que planta flores no (meu) coração Que sangra e esquece e acorda E sorri como um amanhecer frio.
Uma história com pouco mais de um ano. Acho que a pessoa a quem eu mais dediquei histórias, textos e músicas na minha vida.