I can’t change my name
but I could be your type
I can dance and win at games
like backgammon and life
can’t you just fix it for me, it’s gone berserk;
fuck I’ll give you anything if
you can make the damn thing work
The Dresden Dolls, The Perfect Fit
Aeroporto é prenúncio de tragédia. Maldita a hora em que as viagens viraram uma coisa banal, e transformaram o mundo inteiro em cenário de vidas. Antigamente, toda viagem era uma migração, quem embarcava sabia que nunca mais voltaria ao mesmo lugar. Estávamos mais preparados.
Depois dos malditos pássaros de metal, a vida nunca mais foi tão simples. Ela jurou que embarcara numa viagem e eu, besta, não imaginei que era migração, que transformaria sua vida, e a minha, por consequência, de maneira tão brutal. Aqui estou, sentado, esperando o meu voo de volta para o buraco, para o vazio que me espera, quente e acolhedor. O vazio dela.
Foi num instante. Foi repentino, abrupto como um aneurisma. Voltávamos pra casa. Ela e eu, cansados da viagem, das festas de despedida, de empacotar malas. Eu levava, no carrinho, suas malas e a mochila que trouxera para passar o mês. Ela trazia tudo o que tinha de importante, o resto seguiria no caminhão de mudança, no dia seguinte.
Enquanto eu olhava um monitor, tentava descobrir o portão de embarque, algo aconteceu que eu não vi. O universo mudou, desviou pra outro lado numa finta que eu, zagueiro russo, até hoje não sei onde está o ponta-de-lança.
Virei-me e ela, até então completamente normal, chorava. Pediu desculpas, disse que sentia muito, mas não dava. Não queria se despedir, não queria mudar de novo, não voltaria comigo. Pediu desculpas. Chorou, quase implorando perdão. Pegou a mochila, me entregou e saiu empurrando o carrinho.
Não perdôo aquele beijo de despedida. Impediu que eu me sentisse a pessoa mais abandonada do mundo.
Fiquei eu, na sala de espera, com uma coca-cola e toda a solidão do mundo. Não há fidelidade como a dos refrigerantes.
***
Quando ela partiu, o futuro era lindo. Tudo era promessa, crescimento e possibilidades. Ela sonhava com aquele curso há anos, era pouco tempo, a internet nos permitia falar todos os dias. Ia praticar sua dança em palcos grandes como lagos, bailar como a estrela que realmente era.
Fora somente por um ano. Alguém a vira dançando, ganhara uma bolsa, faria um curso. Depois voltaria.
Eu não queria. Não queria a distância dos seus encantos. Chorei, mas aguentei. Compus canções tristes, segurei, até que não pude mais. Não quis esperar que a vida me obrigasse a acompanhá-la. Fiz por onde, busquei uma maneira, fiz das tripas coração para ir encontrá-la. Vendi meu talento e minha alma para comprar a minha passagem e passei o último mês com ela. Juntos, eu poderia cantá-la, convencê-la a voltar comigo à nossa casa e à nossa vida.
Agora vejo claramente que quando eu cheguei, ela brilhava diferente. No momento, pensei que era alegria de me ver e tristeza por estar acabando o seu tempo naquela cidade. Eurídice era só um fantasma, mas eu achava que era uma ninfa.
Mesmo fantasma, resolveu me acompanhar no caminho de volta à vida.
Aproveitamos, nos despedimos da vida lá, empacotamos a casa. Ela me contou tudo o que vivera, as aulas, as pessoas que conhecera. Tinha novos amigos que levaria pro resto da vida. Eu estava realmente feliz por tudo aquilo. Ela se sentia feliz, e eu também, porque era cego e só olhava para frente. Era uma experiência boa, e eu não via nenhuma razão para impedí-la disso.
Só olhei para trás uma vez. Se tivesse feito mais vezes, teria visto que ela olhava para trás o tempo todo. Durante aquele mês, na fuga do inferno, estávamos lutando. Eu, contra o tempo que nos prendia ali, ela com a balança que pendia, ora por mim, ora por sua nova vida.
Quando olhei para trás, tudo era sal, nada mais era doce e não havia mais volta.
Eu era condenado a voltar até conseguir redimir o pecado de me achar mais importante que todo o resto.
Ela ficou lá naquela cidade infernal, com todo o resto. Eu fiquei com o vazio.
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