Uma história muito antiga, mas muito antiga mesmo.
A pessoa só nasce uma vez na vida, e ainda nasce sem dono? Ó sina desgraçada. Filhote de gato, creio que cinzento, listrado, pardo por causa da noite. O bastardinho mia desde que eu acordei, num meio dia de uma terça feira produtiva para o mundo e ociosa para mim. É quase meia noite, e ele ainda procura por uma mãe que o alimente, com sua voz fina, quase um trinado, correndo lépido e faceiro com seus passos incertos de filhote com quase uma semana de vida pela calçada.
É óbvio que é um vira-latas. Gato de raça tem mãe. Ou seja, por mais bonitinho que seja, o melhor adjetivo para caracterizar o pobrezinho ainda é um palavrão, dos mais baixos possíveis. Além de pai desconhecido, abandonado pela mãe. E grita. Grita como se isso resolvesse o seu problema. Coitado.
Não tem irmãos por perto. Normalmente, vemos um bando deles, juntos. Sobrevivem mais fácil quando em bando, aprendem juntos a subir nos muros, roubar comida, se esquentam no frio. Esse, desde que fui apresentado, creio que ontem ou anteontem, é único. Mia solitário, olhando o mundo com olhos curiosos, aprendendo.
Não é um gato triste. Gato triste é siamês gordo quando não consegue subir na mesa pulando por causa do peso. O pequeno corre atrás de insetos, se assusta quando pessoas passam pela calçada por perto dele, se esconde, corre atrás do próprio rabo. Para pra descansar, deita-se, mas não triste. Somente cansado pelo dia inteiro de exploração. Não cansa de miar, e quem sabe se ele não está, na realidade, contando os feitos de suas brincadeiras, como crianças que narram o que brincam? A ciência pode até dizer o contrário, mas eu acho que essa hipótese vale a pena ser escrita. Ou então ele mia procurando alguém para brincar. Ou pedindo comida. Mas não para nunca com seus quase trinados. Um gato que quer ser passarinho.
Escondido embaixo do poste, na esquina da rua, em frente a um grande edifício. Na frente do prédio, algumas pessoas conversando. Do outro lado da rua, um telefone público. O gato ignora que no meio da noite a maioria das pessoas ainda dorme, e continua a miar. As pessoas ignoram o pequeno, ou então reclamam. Gato chato que não para de encher.
Não chove. Mas deveria. O dia está muito quente. Desses que a gente sabe que vai chover no dia seguinte. O pequeno não dá a mínima pra temperatura. Mas se chovesse, teria poucos locais para se esconder. Provavelmente se enfiaria em algum buraco, ficaria extremamente molhado, mas sobreviveria. Acho que só as pessoas e os gatos domésticos morrem de tuberculose e de amor. Os filhotes que miam o dia inteiro sobrevivem a qualquer prova que a natureza os submeta. A chuva vem e vai e provavelmente ele já achou comida, senão não teria forças para toda a gritaria que fez hoje. Se fosse uma pessoa, no meio da rua, o dicionário chamaria de escândalo.
Vai passar a madrugada brincando. Gato dorme, mas fica sempre alerta. Irá brincar com o mundo, vê-lo sempre mudando e incompreensível, e cantando saltitará pela calçada.
Mas amanhã vão encontrar seu pequeno corpo atropelado.