Indiretas

Posted by tarrask on June 13, 2013 · 3 mins read

Quando queria sexo pela manhã, ela acordava, preparava o café e trazia-o para a cama. Sem nenhuma palavra direta, eles se entendiam.

Quando tinha saudades de conversar com ela, sentava no sofá, com as pernas cruzadas e a televisão apagada. Esperava, mudo e impassível, que ela soltasse o sorriso perfeito e tímido, baixando o nariz e perguntasse insolente: “o que foi?”.

Lia todo gesto dele como uma pista. Quando deixava a calça em cima da cama, era porque estava com raiva dela. Se esquecia algo, era para puxar papo, porque tinha a melhor memória do mundo.

Mandava-lhe emails perguntando banalidades somente quando o coração apertava de verdade. Perguntava pela conta do gás quando não conseguia respirar direito pensando nela.

Caso desaparecesse por uma semana, era porque ela queria colo. Não companhia, porque isso sempre tinha, mas compreensão, que ele a abraçasse e dissesse que tudo ia ser lindo, no futuro. A partir de agora.

Se não falava nada no MSN, era porque queria que ela o provocasse. Não conseguia perguntar como ela estava, não aguentaria escutar um “bem, e você?”, e muito menos discutir bobagens. Ficava em silêncio, observando e alimentando-se de todo movimento causado pelo corpo dela, por seu ser. Tudo que ella emanava, para ele, era poesia.

Quando estava chateada com ele, fazia muxoxo. Quando estava triste, perguntava sobre o trabalho. Quando estava realmente com ódio, sorria e fingia tão bem que estava feliz que ele acreditava. E assim, ele ficava miserável.

Às vezes ele se sentia um merda. Quando ela corrigia o seu português. Quando ela provava que não precisava dele para ser feliz. Quando ela sorria por ele estar viciado e depender dela. Então ele escrevia textos melancólicos, que era a sua maneira de dizer que a amava e que era mais homem por necessitá-la. Humanos precisam de deusas.

Se ela lembrava que era divina, ficava enérgica. Não conseguia dormir antes das cinco da manhã, pensando em coisas, fazendo notas mentais de coisas para ler, escrever, desenhar e pintar. Maquinava indiretas e pistas que deixaria no trajeto, migalhas de pão até sua casa de doces.

Quando encontrava essas pistas, ele virava agente secreto. Fingia não tê-las visto até a última hora, sonso e sério. Negava ter visto até que ela, sorrindo, o comia a beijos.

Cada gesto significava outro, cada código, cada dia mais complexo, era uma maneira que tinham de jogar um com o outro, de jogar com o amor e fazê-lo crescer.

Um dia, um dos dois, não lembro quem foi, esqueceu-se de interpretar os sinais das folhas do chá e, perdidos na imensidão de pistas que davam um ao outro, não conseguiram mais encontrar o caminho de volta aos próprios corações.