Tenho uma personagem que se apaixonou por um cara por correspondência. Era a história sobre o reencontro ao acaso de dois pen pals que se apaixonaram décadas antes. Somente através de cartas, houve uma relação entre os dois, que acabou. Mas o importante, acho eu, é que houve algo, sem nunca haver contato físico. Ou seja, sem conhecê-lo pessoalmente, nunca ter ouvido a voz, só com palavras, nasceu um sentimento especial. Ela acreditava que era possível amar uma pessoa por causa da escolha das frases, das ideias, da maneira de expressar-se.
Sabemos o quanto é fácil enganarmos em relação a outras pessoas, caráter, etc. É comum imaginarmos que as pessoas são de uma maneira, e, de repente, descobrirmos o contrário. Na minha história, entretanto, não era sobre isso. A relação acabou por alguma razão fortuita, dessas que não vem ao caso. Talvez ela tenha arranjado um amor físico. Talvez tenha mudado de cidade. Não importa.
O que eu gostei de pensar, refletir e escrever foi sobre a possibilidade de uma mulher se apaixonar pelas palavras de um homem que nunca viu pessoalmente, e vice-versa.
Bem, tem lógica. Eu escrevo, logo tenho todo o interesse nisso, sou suspeito. Pra mim, as pessoas são as ideias que se formam dentro de suas cabeças. Talvez, se eu fosse bonito, a minha personagem gostasse de galãs. Eu gosto que as minhas personagens gostem de mim.
O problema, meu e do protagonista da história, é que quando você cria sentimentos por uma criatura mental, está simplesmente gostando de uma ideia. Então, se você é capaz de criar um ser perfeito com a imaginação, terá de aguentar simplesmente carregar um sentimento por algo que não existe.