“O lobo é o homem do lobo.”
Millôr
Quando chegou pela primeira vez à casa, ainda não tinha nome nem a menor idéia do que era o mundo. Vinha cheirando tudo, subindo onde pudesse e explorando todas as fronteiras do lar. Tentou, seguidas vezes, cruzá-las.
Sua dona o tratava como o primeiro filho. Como ainda não haviam decidido ter um bebê, começaram adotando o cão. Ganhou o nome Snoopy, mesmo não sendo nem um pouco parecido com o famoso. Viveu dentro de casa por bastante tempo, até ficar grande o suficiente para incomodar. Então, passou a ser enxotado, mas sempre achava uma fresta aberta para voltar e deitar-se no tapete da cozinha, perto do calor do fogão, e refestelar-se.
Era grande, era forte e bastante atento. Vigiava a casa, latia para qualquer intruso, apesar de não ser agressivo com donos ou qualquer visita. Era, às vezes, até afável mesmo com estranhos, se estivessem acompanhados pelos donos. O casal temia que ele pudesse ser assim também com um eventual invasor.
Em pouco menos de dois anos, já se tornara um assassino. Todos os gatos das redondezas que se aventuraram na goiabeira do quintal já haviam sido mortos com ferocidade e sem aviso prévio. Seu maior objetivo, se é que um cachorro pode tê-los, era subir o telhado e tirar uns filhotes recém-nascidos do telhado. A gata prenha achou de parir ali, e eles passavam o dia a miar, deixando-o cada dia mais preocupado. Se pudesse voar por alguns instantes…
Às pessoas não demonstrava nenhum instinto violento. Algumas visitas nem pediam para prendê-lo antes que entrassem, dado o hábito e a convivência. Snoopy já havia decidido quem eram seus inimigos, apenas os que invadiam seu território.
Sua paixão pelos donos era incrível. Passeava solto com eles, fazia festa todos os dias, mas apenas se encostava e ficava quieto se sentisse uma ponta de tristeza. Choramingava pelos cantos quando o dono viajava. Ficava irrequieto quando só, andando de um lado ao outro na frente do portão.
À noite, ficava solto, circulando pela casa, caçando algum gato invasor, buscando algo que se movesse, ou dormindo embaixo do carro. Tentava algumas vezes entrar na casa quando o dono chegava tarde, passando pela porta antes que ele a fechasse, mas sempre era expulso.
Uma vez, quando o dono chegou bastante tarde, e um pouco tonto por causa de uma bebedeira, ele tentou entrar. O dono, sem equilíbrio, caiu. Se levantou gritando.
“Essa merda desse cachorro! Putaqueopariu, Snoopy, vai pra fora! Mulher, bota esse puto pra fora!”
A mulher, que dormia cansada no sofá, esperando o marido, levantou, assustada.
“Mas o que houve com o bichinho? Ele só tá querendo carinho”.
Snoopy agitava a cauda, fazia festa para a dona recém desperta.
“Porra nenhuma. Não agüento mais esse peste. E você, porque está no sofá?”
“E tem algum problema? Você chegou tarde, fiquei esperando. Onde você tava?”
Nos olhos vermelhos dele acendem chispas. Por que demônios a mulher fez aquela pergunta? E era da conta dela? Estava num bar, bebendo com amigos, falando besteira. Ela não gostava de conversa de bar, ele gostava, não havia nada demais.
“Não é da sua conta. Sua bisbilhotice é insuportável, nem comece a perguntar que eu não respondo.”
“Como não? Tava fazendo algo errado?”
“E eu lá sou homem de fazer coisa errada? Tá ficando doida, mulher?”
“Eu não, foi você que se acusou.”
“Olha, você não me encha a paciência, senão…”
“Senão o quê?”
Ele entorta a cabeça, olhando para ela, com ódio. Pensa. Levanta o braço. Pensa de novo. Abaixa. Bufa. Levanta o braço novamente e desce um tapa sonoro no rosto.
“Não me responda, sua sem-vergonha.”
Ela engoliu o choro, se encolheu no sofá e ficou olhando para ele com medo. O cachorro ficou ao lado dela, e rosnou. O marido olhou de novo, e foi para a cozinha, bebeu um pouco de água e foi dormir.
Houveram mais vezes que ele bateu nela. Na segunda, ele bateu com força, várias vezes, e ela chorava alto. Lá fora, o cachorro latia. Isso o enfurecia mais. Batia mais, e ela se encolhia. Apesar disso, não conseguia reagir.
Ele passou a sentir-se melhor. Às vezes pedia desculpas, e ela sempre as dava, e o fazia prometer que nunca mais faria isso. Ele culpava a bebida, os nervos e o estresse no trabalho. E terminou virando um hábito.
Na sexta ou sétima vez, ela estava no quintal, sentada, com medo, quando ouviu o ronco do motor do carro desligando. Levantou-se. Tentou entrar rápido em casa, pela porta da cozinha, mas ele já estava na porta da frente. Como era pequena, e ligada somente por um corredor, da entrada via-se a saída. Ele já a encarava com raiva.
“Tá acordada por quê? Vigiando de novo? Porra, mulher, a gente nunca vai chegar a uma convivência assim.”
Ela entra, meio cabisbaixa, rapidamente, pedindo desculpas, humilde. Tenta ir em direção ao quarto, mas ele vai atrás dela. Reclama de novo. Ela cala, tentando não responder, para não contrariá-lo com nenhuma resposta.
Ouve-se o primeiro tapa. O segundo. Os soluços. Os latidos. Snoopy late mais alto. Parece bastante próximo. De fato, entrara pela porta aberta da cozinha. Ou da sala, ninguém nunca vai saber. Mas, ao ver a dona chorando, e o dono batendo, tratou-o como os gatos invasores. Correu, mordeu e fez sangrar. O dono se debatia, mas não era um cão pequeno, nem fraco. Era forte o suficiente para brigar com um ladrão. Ou um covarde.
O dono passou duas semanas no hospital. A mulher foi visitá-lo, coitado. Levou flores. Eles conversaram bastante.
Ele pediu desculpas, disse que a amava, não conseguiria viver sem ela. Ela terminou aceitando. Quando o marido teve alta, levou-o para casa. Snoopy foi entregue à carrocinha. Ela tinha medo da reação do cão, o homem também. Como ninguém adota um cão de guarda macho adulto, deve ter sido sacrificado.
O casal decidiu continuar junto, e ter o seu primeiro filho. Ela continuou apanhando.