Eu não sou uma pessoa. Não sou ninguém. Sou uma máquina.
Não é possível ser muito humano com a minha rotina. A parte de acordar cedo, deixar o menino na escolha, pegar duas conduções, tudo isso é normal. Todo mundo faz. Aí eu chego no trabalho, aquela filial do inferno. De verdade. Mas eu preciso do dinheiro, e alguém tem que fazer o meu serviço. Não me acho pior que um político ou um policial, e os dois são tratados por excelência.
Comigo, começam tratando por você, e depois de quinze minutos, é de puta pra baixo. E pra mim, prostituição não é ofensa, eu até preferia trabalhar nisso, se fosse mais nova, e mais gostosa. Ninguém quer contratar uma mãe de família mal alimentada, que nunca teve grana pra cuidar da pele nem dos cabelos. E bem, sou um pouco tímida também. Mas não era disso que eu queria falar. É que eu tenho o costume de sempre mudar de assunto. Defeito profissional.
Quero falar que me tratam bastante mal no trabalho. Meus chefes têm uma empresa que presta serviços. Na realidade, é um galpão imenso fantasiado de escritório, e a gente fica em cubículos pequenos atendendo telefones, na frente de um monitor, colocando e mudando números num gigantesco banco de dados, num sistema que vive fora do ar. Poderia ser um banco, uma universidade ou uma agência de publicidade. Mas a gente só presta serviço.
Meus chefes contratam pessoas como eu, e tão rápido quanto treinam a gente, também demitem. É preciso ser um pouco tímido, um pouco surdo, ser paciente, aguentar seguir ordens, e não querer perder o emprego. É difícil, mas até agora eu estou conseguindo.
Não é um trabalho gratificante. Provavelmente, bem menos do que uma prostituta, falo das que fazem isso por vontade própria, claro. Aqui, se o cliente ficar satisfeito, o meu chefe não fica. Se o chefe ficar, o cliente vai ficar possesso, me xingar mil e trezentas vezes, odiar o meu nome, e eu vou ficar com o karma ruim de estragar o dia dele. Depois de falar comigo, todo mundo tem um dia pior.
A minha voz é um bom-dia ao contrário.
O serviço que a minha empresa presta é cancelar o serviço de empresas que não prestam. No meu caso, uma companhia de telefonia celular. Mas podia ser um banco, que era o que eu fazia no mês passado. Agora fui promovida, e trabalho em uma área na qual é mais fácil cancelar, e por isso eles colocam os melhores funcionários. E agora meus clientes ficam mais putos, ou meus chefes reclamam mais das minhas metas.
Funciona assim: você me liga. Pede educadamente, pelo amor de Deus, que eu cancele o seu número. Explica as razões, verdadeiras ou inventadas. Pra mim é a mesma coisa, porque eu sou obrigada a fingir que não escutei, e tratar como se fosse tudo invenção. Eu sei que o meu celular não pega bem no galpão do escritório, e eu nem tenho desconto porque trabalho pra empresa, sou terceirizada. Mas preciso estar dizendo a você que o nosso novo serviço 4G funcione melhor. Li numa revista que nem tem 3G funcionando direito no Brasil, mas isso eu não posso dizer, porque não está no manual.
Então você, o cliente, perde a paciência e me xinga. Aí começa a verdadeira sacanagem. A linha fica meio ruim, entra uma chiadeira, eu começo a transferir o seu número pra minha supervisora, que é como a gente chama o estagiário aqui. Ela não vai resolver nada, mas talvez você perca a paciência e desista. Está no manual, e quase sempre funciona. Acredite, eu já ganhei uma promoção por isso.
Eu não acho isso bonito. Mas alguém tem que fazer, e eu não tenho direito a um carro oficial ou a andar num avião da FAB. Produzo a mesma coisa que um político “ NADA “ e atrapalho bem menos o destino do País. Pense nisso na próxima vez que me xingar.
A minha função na sociedade é ser xingada. As pessoas ligam para desopilar o fígado e acabar com uma frustração. Não é como se você estivesse mesmo saindo da operadora e mudando para outra melhor. Está mesmo? É bem a mesma coisa, tudo igual. No ano que vem, quando você for cancelar de novo, é capaz de eu estar trabalhando em outro setor, e atender a sua ligação, e você tente cancelar e voltar pra primeira empresa. Nós prestamos serviço pra todas.
Não fique com peso na consciência por gritar comigo. É só um trabalho, e eu estou acostumada. Podia ser pior, se eu realmente prestasse atenção ao que você diz. É difícil ligar, porque a história é sempre a mesma: ligação caiu, a conta veio errada, eu quero um telefone novo e não me dão. Tudo a mesma coisa. Liga pra outra empresa. Eu vou estar atendendo também.
Também não me chateio quando você fala em gerúndio, tirando onda da minha cara. Eu também acho ridículo, mas está no manual da empresa na qual presto serviços. E o manual foi mal traduzido. Sabe como é, tradução é um serviço baratérrimo. Eu sei porque fiz Letras, mas não queria trabalhar na área. Tradutor cobra por palavra traduzida. “Vamos cancelar” tem duas, “Nós vamos estar cancelando” tem quatro. E os gringos acham que tá certo, pagam melhor. Eu fiz esse truquinho na faculdade. Pagava as minhas contas.
Mas ainda prefiro o meu trabalho. É preciso ser meio máquina, fingir que não somos uma pessoa, que somos um muro escutando os gritos furiosos de um cliente exasperado, a ponto de atirar o telefone à parede, babando e cuspindo perdigotos, com os olhos avermelhados e um dos punhos cerrados, implorando, impotente, que eu não transfira, pela quinta vez, a ligação para um colega, que ele é importante e quer falar com meu supervisor agora.
Mais uma ligação para a mesa dos estagiários.