Rainbow Road

Posted by tarrask on February 12, 2010 · 4 mins read

Quando eu era pequeno, Super Mario Kart foi meu primeiro contato com o impossível e com a língua francesa do manual de instruções.

Lembro de ter passado muitíssimas tardes jogando sozinho, ou com os amigos do prédio. Lembro da operação para tentar terminar o jogo. Para quem não entende como funciona, um resumo rápido. O jogo é feito de vários campeonatos, e registra o troféu máximo que você chegou a conseguir em cada um deles. Quando era criança, ganhei todos, menos um.

O último, chamava-se Especial, tinha 5 corridas, e a última era uma pista chamada Rainbow Road. Esta miserável, bandida e desgraçada ainda é a pista final e a única constante de todas as versões em todos os videogames. Tem duas peculiaridades: é completamente colorida (daí o nome), a ponto de confundir e causar convulsões em mentes menos preparadas, e não tem guard rail. Saiu da pista, cai num abismo que demora anos pra voltar. Sem escapatória.

Lembro de mais de uma vez, jogando em pares, montarmos estratégias a la Senna-Berguer, simplesmente para terminar a corrida. Um dos dois ganhava todas as outras, o outro chegava sempre em segundo, para que a máquina nunca fosse capaz de ter pontos suficientes para ganhar o campeonato. E nunca dava. Cheguei a ganhar tudo, e já ser campeão no grid de largada, com 4 tentativas. Só precisava completar a corrida em quarto lugar, para ultrapassar a fase. E nem precisava ser eu. Se o segundo piloto chegasse em quarto, e eu em último, seria campeão. E nem assim venci a maldita Rainbow Road quando era criança.

Depois de velho, aí por 2002, achei um emulador. Pude jogar a versão SNes e a do Nintendo 64. Outra vez, aconteceu o mesmo. Ganhei tudo, mas não terminava o último campeonato especial porque não terminava a Rainbow Road. Tentando ao máximo, mas não chegava.

Há 3 anos, comprei uma Nintendo DS, com a melhor versão de Super Mario Kart até então lançada. Adivinha o que aconteceu? Sim, passei meses jogando, acabei tudo, menos o campeonato final, invertido, da Rainbow Road. Um amigo jogava o mesmo jogo, chegava à última volta liderando, pra ser campeão, pausava e me mostrava onde estava. Inveja pura.

Me sentia um nada.

Não que eu jogue mal. Acho que sou um bom jogador de Mario Kart. Ganho da máquina praticamente todas as vezes que jogo. Raramente perco para humanos, só jogando online com viciados do inferno ou do Japão.

Mas naquela pista, eu me sentia um nada. Voltava a ser iniciante. Sempre sobrava em uma curva.

Até uma fatídica viagem de ônibus, voltando pra casa no fim do verão. Ônibus balançando, calor dos infernos, dedos doendo. Na maior sorte do mundo, eu cruzo a linha de chegada em primeiro, pontuação máxima, algo que, durante mais de uma década, foi impossível.

Desligo o videogame. Zerei o jogo. Aquela sensação maravilhosa de terminar algo prazeiroso e difícil, como ler o Senhor dos Anéis pela primeira vez, acabar Neverwinter Nights depois de uma semana só jogando ou ver uma série de desenhos até o final. Mas era mais forte. Não foi o mesmo que acabar qualquer outro jogo. Foi um que me resistiu a conquista desde a primavera de 93 até o verão de 2007. 14 anos de lutas, verde, amarelo, vermelho, azul e rosa fluorescente na cara, raios catódicos malignos, um pouco mais de miopia, suor, sangue e pipoca.

Como criança, celebrei. E também veio a grande dúvida: será que eu sou capaz de repetir?

Na DS, na Wii, onde for. Só ainda não consegui coragem de provar no Super Nintendo.