Resultados parciais da brincadeira do qualquer coisa de triste

Posted by tarrask on December 24, 2013 · 4 mins read

Uma das brincadeiras que estou fazendo neste blog consiste em enviar uns textos e começar diálogos por email com alguns leitores-cobaias interessados.

Uma das leitoras em particular me brindou com uma conversa imensa, de emails com laudas e laudas, que já superaram muitas vezes até o próprio texto que iniciou a discussão.

Primeiro, ela leu e se sentiu incomodada com o texto. Entretanto, não achou ruim.

Ao mesmo tempo, esse incômodo é uma coisa boa, né? Se incomoda é porque tocou e, se tocou, faz sentido, é arte de verdade.

Continuamos conversando, e ela chegou à conclusão que o meu protagonista era um mamão.

Com relação ao personagem, fico pensando o quão sortudo ele pode ter sido na vida ou no nível extremo a que chega o seu idealismo. Porque, para mim, haveriam três possibilidades:  ou 1. ele foi um cara que só teve relacionamentos sólidos, tranquilos e respeitosos; ou 2. apesar de todo o desgaste e aperreio que (até os melhores) relacionamentos trazem, ele continuou acreditando que existe um estágio elevado de amor que, quando se atinge, é assim perfeito e maior que tudo (ou seja, ele não aprendeu muito com a experiência) ou 3. essa menina é a primeira e única pessoa com quem ele se relacionou sério durante toda a vida (tipo aquele pessoal que namora a mesma pessoa desde os 15 anos, sabe?), ele a colocou em cima de um altar, disse que ela era a mulher da vida dele e, até então, nada muito grave havia acontecido para contestar essa disposição das coisas.

Transformou a vítima em vilão, e a assassina em uma pessoa normal. Entendeu o que aconteceu, e desmontou a narrativa. O protagonista quase que mereceu sofrer.

Mas, olha, não concordo que ele tenha sido enganado. Fico pensando se ela também acreditava nesse amor ideal, o quanto, apesar de toda vontade de ficar, pensava “é assim que as coisas são.

Quando eu notei o massacre, ela admitiu que talvez tivesse sido dura demais com o protagonista, e declarou-se fã da vilã.

É por esse motivo que Eurídice tem minha admiração. Ela é a razão da história, tudo se move pelas escolhas feitas por ela (e isso faz dela uma versão extremamente melhorada da Eurídice do mito). O que Orfeu faz é reagir.

Durante a nossa troca de emails, cheguei a dizer que a conversa estava me fazendo ver pontos bem interessantes no texto que eu havia montado, e, quando achava que a discussão tinha acabado, minha interlocutora soltou uma teoria tão espetacular, tão maravilhosa, que poderia até ter um post só pra ela.

Sério. Ela definiu pra quê serve o pé na bunda, e o transformou num ato de carinho pelo chutado. Nunca, um “não é você, sou eu” doeu tão pouco.

A razão do fim de um relacionamento parece ser aquela coisa que quem termina precisa dizer para sair oficialmente da relação (então nem sempre é verdadeira) e que quem é deixado precisa receber para dar início ao processo, tantas vezes longuíssimo, de “virada de página”. Sei lá, talvez seja meio que um “presentinho” que quem vai embora deixa pra quem fica dizendo “olha, eu tô indo, mas toma isso aqui que pode te ajudar”. O que foi deixado se agarra àquela razão, começa a colocar todo o relacionamento numa disposição lógica, buscando entender quando e como a razão do fim surgiu para poder ter provocado o fim da história.

Alanna, eu só consigo aplaudir isso. 😀