Se eu tivesse um iPhone em 98

Posted by tarrask on May 11, 2014 · 4 mins read

Li que alguém fez um cálculo do valor de um smartphone em 1995 e chegou ao astronômico número de três milhões de dólares. Esse foi o valor estimado pra um aparelhinho capaz de fazer tudo o que o gadget da Apple faz, daquele tamanho, naqueles tempos idos de outrora.

Estávamos começando a entender fax-modems, a baixar mp3 no Kazaa, a conversar no ICQ e a buscar no Altavista ou algo que o valha. E tínhamos uma vida completamente diferente. Se eu fosse um adolescente de hoje e tivesse na mão esta pequena maravilha da modernidade, teria com certeza vivido de maneira diferente.

Talvez nunca tivesse feito a minha mãe quase enfartar ao perceber que eram três da manhã e eu ainda não tinha chegado em casa, porque esperava um ônibus que não passava nunca depois que saí da casa de uma namorada. Provavelmente também nunca teria ficado trancado fora de casa, enquanto todo mundo dormia, em outra situação, e nunca teria visto o sol nascer de dentro da piscina.

Não teria a alegria de copiar uma fita com a gravação da transmissão da Globo do concerto do Roger Waters em Berlin, um ano depois da queda do Muro, nem muito menos partido a fita de tanto repetir. Poderia, entretanto, compartilhar essa versão maravilhosa com todo mundo, em mil redes sociais diferentes, e talvez até uma pessoas ou duas clicassem para assistir. Naquela época, a gente dava mais valor às recomendações dos amigos.

Talvez eu tivesse ainda hoje muitas fotos da minha namorada naquela época. E de amigos daquela época. Possivelmente, da namorada que partira meu coração uns três anos antes, e da que iria partir meu coração vários outros depois. Talvez houvessem fotos minhas por aí, guardadas por meninas cujos corações eu parti, querendo ou sem querer. Talvez assim elas lembrassem da minha cara. Talvez eu lembrasse de mais sorrisos.

Se eu tivesse um iPhone em 98, eu teria milhares de gravações da minha banda de garagem, com todas as versões cheias de erros e espinhas e vontade de quebrar o mundo, e provavelmente eu hoje as escutaria com uma mistura de vergonha e saudade. Duvido que tivéssemos conseguido gravar um vídeo decente para compartilhar, mas não seria impossível. E quem sabe, com um pouco de imaginação, não houvesse um vídeo de duas horas com três ou quatro adolescentes (o número variava de acordo com os compromissos do Tox) fazendo muito barulho e alguns acordes disponível na internet, para todo o sempre.

Também é possível que eu tivesse bem menos amigos naquela época. Considerando que a minha casa ficava num buraco do espaço-tempo do transporte público de João Pessoa, era onde ficava mais barato para que a galera que vivia em bairros diferentes se encontrasse. Era impossível organizar um bando de vinte ou mais pessoas por telefone, e ninguém cumpria horários quando a gente marcava. Por isso, e porque a minha mãe não ligava pra um bando de adolescentes fazendo nada na garagem ou na sala, todos vinham para o Miramar nas tardes vazias dos fins de semana, antes de decidirmos ir para algum lugar esquisito como o Espaço Cultural ou um rodízio de pizza. Se cada um de nós tivesse um iPhone, bastava que o primeiro compartilhasse uma localização no grupo do Whatsapp e ninguém nunca mais me visitaria em casa.

Provavelmente eu não teria lido nem a metade do que li. Ao invés de gastar com livros, teria pago um plano de dados. Ou passado tantas tardes sem fazer nada particularmente importante, assistindo TV, comendo biscoito e não pensando em nada importante. Talvez tenha sido isso que me ensinou a conviver com o tédio. Algo que eu já esqueci, porque hoje eu tenho um iPhone, mas que eu gostaria muito de voltar a fazer.