Desamparo Versus Ombro e Cafuné

Numa conversa, temos duas pessoas se comunicando. Uma fala algo, ping, a outra responde o que achar mais adequado, pong.

Cada ida e volta desses é recheado pelo mesmo material que compõe os participantes. O flamenguista fala do Flamengo, o vascaino fala do Vasco. O bacharel fala em juridiquês e o jovem empresário fala em inglês.

Cada frase adiciona um pouco mais de cada participante no espaço da conversa, preenchendo-o com suas verdades, crenças e valores.

Mas e se um dos interlocutores não está bem?

Imagine uma criatura, espécime raríssimo no habitat do twitter, que está angustiada com algo. Essa angústia fermenta e se expande até que a crosta exterior sente essa pressão, e seu cérebro planeja uma forma de se aliviar.

O desabafo é uma ótima maneira de diminuir essa sensação, mas nem sempre funciona. Por que?

Existem várias respostas, mas um fator externo específico, o ouvinte, é uma peça fundamental e não depende de quem desabafa.

O que o flamenguista deve fazer quando o vascaino se lamentar?

Quando alguém quiser desabafar com você, escute-o.

Parece simples, mas é um trabalho muito delicado.

Escutar uma outra pessoa esvaziar sua panela de pressão, de forma que depois se sinta aliviada, é muito difícil.

A principal dificuldade está em só escutar, sem se intrometer.

É ver uma pessoa cavando com uma colher enquanto temos uma pá na mão. Nossa vontade é intervir, ajudar a resolver logo, dizer “deixa comigo” ou então “faz do meu jeito que é melhor”..

Quando pede por um ombro amigo, a pessoa não quer soluções nem fórmulas. Quer companhia, um ouvido e um recipiente vazio pra despejar o que estava pressionando o peito.

E não dá pra transferir nada para um lugar que já está cheio.

Quem escuta deve se esforçar para tirar da conversa os seus entulhos. Esvaziar o ambiente para que a pessoa que está precisando tenha espaço para despejar suas lástimas.

Ela que diluir as lágrimas nesse espaço entre vocês dois, então deixe a área vazia, saia da frente, mande suas vontades e seu ego darem um passo para trás.

Fora permitir que a pessoa fale, você não vai resolver os problemas dela. Pelo menos não agora.

Tem frustração maior do que você falar de seus problemas e o ouvinte minimizar seu sofrimento? Tratar ele com desdém? Dizer que é besteira, que é infantilidade?

Só escutar o comentário “vai passar” já deixa a impressão que você voltou a ter quatro anos de idade.

Se um amigo seu vem lhe contar sobre um problema que está passando, não tente minimizar seu sofrimento, dizendo que esse problema é fichinha e você já passou por maiores.

Por mais que você leia sobre empreendedorismo, um desabafo não é uma oportunidade pra mostrar o quão decidido você é, quão vasta é sua experiência acumulada, ou o quanto você é bem-resolvido.

Se você agir dessa forma, você deixa de dar atenção à pessoa que está suplicando justo pela atenção. Você se torna um egoista insensível. Numa conversa normal, você já ficaria mal colocado, mas no teste de ombro amigo você reprova vergonhosamente.

E agora, qual o próximo passo da coreografia?

Esses cuidados já exigem um grande esforço da pessoa que oferece seu ombro, e tem lá suas recompensas.

Mas lembre-se que esse esforço só permite que o problema seja apresentado, seja falado. Isso não quer dizer que o outro vai realmente desabafar, que vai ser sincero, e muito menos que vai resolver seus problemas.

Mas se você não proporcionar esse espaço, não pode chamar a conversa de desabafo.

0 Comments on “Desamparo Versus Ombro e Cafuné”

  1. Porque, né, é tão legal ouvir de pessoas que você acha que vai encontrar um ombro amigo que você está de frescura e devia tomar vergonha na cara… NOT.

    1. É muito frustrante mesmo, Fabiane.

      Foi por já ter passado algumas vezes por essa situação e visto também outras pessoas queridas passarem que eu resolvi falar um pouco do assunto.

      Da próxima vez que alguém fizer isso contigo, dê uma cotovelada na maçã do rosto e mande ele ler esse post!

      E falando em frustração, um amigo dizer que seu problema é frescura é tão frustrante quanto uma frase que afirma uma coisa e no final nega o que afirmou? 😉

        1. Quer dizer que você não está negando que o NOT foi uma forma de negar a afirmação?

          🙂

    1. Quela,

      O plano é influenciar Tarrask subliminarmente.

      Ele deve ir lendo os posts e reagindo aos poucos. Em breve poderemos levá-lo para passear pela vizinhança, e a longo prazo o objetivo é que ele possa ficar sem coleira.

      😉

      Merci

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