Eu Sou Uma Boa Pessoa

Quando vemos alguém cometendo uma atrocidade, pensamos logo “eu nunca faria isso”. Temos certeza que somos pessoas de bem, e nos consideramos antagonistas de quaiquer Nardonis que surjam no noticiário.

Se perguntados, repondemos que somos bons, que nos comportamos, que obedecemos mãe e pai. Gostamos de parecer responsáveis e donos de si. Nos esforçamos para fazer tudo certinho, sempre tratando os outros bem e agindo de forma generosa.

Não seríamos capazes de fazer o mal a outra pessoa.

Porém, por mais que nossa consciência e amor-próprio tentem nos incutir com essa teoria, ela não bate com a realidade.

Quando deixamos de lado os extremos, começamos a ver que a linha entre bem e mal não é nítida, e que na paleta só existe cinza.

Você eletrocutaria um estranho?

No meio do século passado o psicólogo Stanley Milgram conduziu um experimento onde ele esperava descobrir até onde a obediência à autoridade pode fazer uma pessoa normal agir contra a sua consciência.

Vendo os horrores cometidos pela Alemanha nazista, Milgram se perguntou: se nem todos os alemães eram monstros psicopatas como Hitler, por quê vários deles agiram como tais na segunda guerra?

Sua hipótese era de que havia algo de muito podre no efeito que a obediência pode ter sobre nosso comportamento.

No experimento, ele deixava os participantes responsáveis por dar choques em outra pessoa toda vez que ela errasse uma resposta. A cada resposta errada, a voltagem do choque aumentava, até o perigosíssimo nível de 450 volts.

Anúncio procurando sujeitos para o experimento

Quem aplicava os choques ficava numa sala separada da vítima, acompanhado de um cientista com uma bata branca, mas conseguia escutar os gritos de dor e súplicas por piedade vindos da vítima. O cientista, a figura de autoridade, era quem dava as instruções e insistia que o participante continuasse aumentando a intensidade dos choques, quando este hesitava diante dos sinais claros de sofrimento.

A intenção era ver quantas pessoas aceitariam aplicar a voltagem máxima. Para mostrar a intensidade da experiência, nos níveis mais altos os sons mudavam de gritos para de pancadas na parede e reclamações de problemas cardíacos e por fim, um silêncio mortal. [para acalmar as sociedades protetoras dos animais: ninguem recebeu choques de verdade, embora quem estava aplicando não soubesse disso]

Antes do experimento, Milgram fez uma pesquisa com psiquiatras perguntando quantas pessoas eles achavam que chegariam até os 450 volts. Eles previram que em torno de 1% das pessoas cometeria uma atrocidade dessas.

Eu chutaria um número parecido: um percentual pequeno da população é psicopata, então poucas pessoas seriam capazes de conscientemente colocar em risco a vida de um estranho.

Os resultados do estudo foram bem diferentes do esperado: 65% das pessoas foram até o fim, no primeiro estudo. Depois de inúmeras replicações, a média permaneceu em 63%.

Essas criaturas reclamaram, se mostraram incomodadas, mas não pararam.

Impressionante, não? Quem ficou curioso sobre o experimento, sugiro assistir a esse vídeo rápido sobre ele.

Agora que você viu até onde pessoas normais podem chegar…

Isso significa que juntando eu, você, nossas famílias e amigos, mais de dois terços de nós daríamos ótimos soldados da SS.

Desde a inquisição, nós aprendemos que o bem e o mal são características individuais e que poderiam ser claramente distintas. É algo que se determina de pessoa a pessoa. Eu sou bom, Nardoni é mau. Eu sou valoroso, Sarney é um pecador.

Estudos como o de Milgram nos mostram que essa linha que separa o bem do mal não é determinada pelo indivíduo, ou pelo menos não só por ele. A natureza das relações que o sujeito mantém com seu entorno é essencial para definir que comportamento ele apresentará.

Mas minha preocupação não é que a gente porventura cometa um genocídio. O que gera preocupação é um mal menor, mas mais frequente.

“Mas você só disse pra fazer, não disse que era pra fazer bem feito.”

Nas empresas, onde normalmente há uma hierarquia rígida, essa obediência à autoridade também faz estragos. A frase ‘foi ele quem mandou’ se tornou lugar comum, desculpa básica para se evitar trabalhos, ou executar de forma desleixada.

O comodismo que a falta de responsabilidade proporciona funciona como uma cerca ao redor do potencial da pessoa, impedindo que ela faça um trabalho excepcional, que ela se destaque.

É fácil apenas executar, quando outra pessoa se torna responsável pela forma como foi executada. É mais fácil ainda executar só o que a outra pessoa mandou, mesmo sabendo que poderia ser feito muito mais.

A fuga da responsabilidade pela decisão é uma estratégia de proteção.

E aí voltamos ao início do texto: qual nossa capacidade de se responsabilizar por nossas ações? Como eu me comporto diante de uma autoridade? Quanto eu me conforto e me desleixo, quando tenho com quem partilhar a responsabilidade por um fracasso?

É confortável permanecer à sombra de alguém, é fácil não ter que decidir, é comum simplesmente seguir as ordens do pesquisador, já que é ele quem tá mandando.

Ter força para não se anular diante de um chefe é raro, e ainda mais difícil é ter habilidade para fazê-lo sem desrespeitar nenhum dos envolvidos.

0 Comments on “Eu Sou Uma Boa Pessoa”

  1. Uma pessoa que tenha chegado até o fim e ‘matado’, repetiria o processo? Isso foi verificado também nesse estudo? Ou logo depois do silência a farsa era desmascarada?
    Faço essas perguntas porque a experiência de matar parece ser algo muito forte, um divisor de águas do comportamento. Lemos relatos de que, mesmo com muito treino, soldados ficam traumatizados pela experiência.
    Acho que é isso que diferencia a maioria dos psicopatas: sentir menos [nenhum?] remorso.

    1. Telmo,

      Até onde eu saiba, o pessoal não tentou repetir a dose com o mesmo indivíduo não.

      E sim, depois que o experimento chegava ao fim (seja pelo cara se negar a aplicar, ou por aplicar o choque de maior intensidade), eles contavam qual era o proprósito real do estudo e explicavam que o outro sujeito não morreu.

      Se não me engano, hoje em dia você não conseguiria replicar esse experimento em muitos países pelo mundo, justo pelo fato da experiência ser muito forte. É a muléstia da ética atrapalhando a brincadeira de novo! 😉

  2. wow, ovo. fiquei pensando agora.
    essas experiências que você falou são muito sobre o quanto perdemos a nossa individualidade enquanto “soldados” – ou empregados.
    mas eu queria levantar 2 coisas – sobre o fato de sermos bons ou não (comecei a pensar nisso quando vi o seu título)
    ponto 1: acho que isso é bem freudiano, que o ser humano é eros (instinto criador, de amor e realização) e tânatos (instinto destruidor, de raiva e negação) e por isso entendo ser “humana” a disposição de “destruir” – entenda, algo como institintiva, não que tenhamos que fazer isso sempre pq afinal, aprendemos a nos comportar em sociedade. e por isso, acho que nem todo mundo é bonzinho não.
    ponto 2: a historinha de outra experiencia que um professor separou os alunos de uma classe e disse que uns eram policiais, e outros presos – e que ele teve que interromper a experiência porque em pouco tempo os policiais da historia estavam abusando dos presos…

    o meu ponto é que à medida que nos afastamos de um entendimento e de uma relação indivíduo-indivíduo, gradativamente corremos o risco de deixar de ser bons, seja por interpelarmos entre nós as máscaras da autoridade (emerge o instinto tânato) ou da obediência cega, como você pontuou. ou, como uma amiga minha disse: “quanto mais você se acha importante, menos humano (menos gente) você é”.

    beijos

    1. Quela, você já pescou várias referências! 🙂

      Já tem um post agendado pra semana que vem falando sobre o experimento da prisão de mentirinha.

      Sobre Freud, o ponto era exatamente esse. Nós vivemos pulando de um lado pro outro dessa ‘fronteira’ entre bem e mal. Tentar negar isso é reforçar uma fantasia de que somos puros e bons.

      Se achar importante talvez seja só um sintoma desse tipo de fantasia, onde você puro é melhor que os outros impuros.

      Ah, e obrigado por todas as referências da minha área. Você fez um psicólogo feliz.

      Beijos

    1. Nunca li direto da fonte, Alice.

      Já li algumas coisas sobre, e sei que a teoria dela é desse time de que o mal não depende só da pessoa, mas não sei de detalhes dela.

      Ontem mesmo Tarrask me encaminhou um artigo falando dela, onde ele citava como ela se inspirou também nos horrores da segunda guerra.

      Aproveita o espaço e conta um pouco do que você sabe.

      Beijos

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