Plantação de Bandidos e Heróis

Como é que um Miguel Nicolelis e um Maluf podem surgir do mesmo povo, da mesma cultura? O que diferencia a lavoura onde eles foram cultivados, pra que o resultado sejam frutos tão diferentes?

Philip Zimbardo, psicólogo norte-americano, passou boa parte de sua vida acadêmica pesquisando sobre esse fenômeno.

O que faz com que o anjo preferido de Deus se transforme no capeta? O que houve com Lúcifer, pra que ele se tornasse sinônimo do mal?

Num experimento realizado em 1971, como Quela citou na semana passada, Zimbardo e sua equipe selecionaram estudantes de Stanford para simular uma prisão. Enquanto ele esperava estudar o efeito da desumanização (não ser mais tratado como um indivíduo) nos prisioneiros. O estudo completou 40 anos recentemente, e continua causando discussões.

Mas o que tornou esse estudo famoso e divulgado foram as ações dos guardas.

Depois que os prisioneiros começaram a mostrar sinais de rebeldia, os estudantes interpretando os guardas incorporaram o papel e passaram a agir com cada vez mais violência. Passaram a coagir, intimidar e humilhar os prisioneiros.

Se lembram das fotos de Abu Ghraib no Iraque? Esses estudantes de Stanford cometeram abusos semelhantes, obrigando os prisioneiros a simularem sexo oral e privando-os do sono.

Nas palavras do autor: “A reação de stress foi tão extrema que garotos normais, que nós selecionamos por serem saudáveis, tiveram colapsos em 36 horas. O estudo terminou em seis dias porque saiu do controle. Cinco garotos tiveram colapsos nervosos”.

É, gente que conseguiu estudar em Stanford, sem humanidade nenhuma.

Como pode?

O que Zimbardo descobriu foi que a instituição, com suas regras definindo como o poder é controlado e exercido, serve de adubo para as características das pessoa.

Se a instituição for desenhada pra estimular nosso músculo sádico, ela serve como um megafone para nossa agressividade.

No caso dele, ele estimulou os guardas a manterem a ordem na prisão, e os guardas viraram o cão pra cumprir seu papel.

“Se você der a alguém poder sem supervisão, é uma receita para o abuso.”

Diferente do estudo de Milgram, onde os perversos não eram os detentores do poder e apenas obedeciam ordens de uma autoridade, aqui os próprios indivíduos foram motivados a exercer esse poder, com vários ingredientes para abusar dos prisioneiros.

E sobre o Nicolelis e o Maluf?

Acompanhe esse raciocínio:
Quem pode mudar a lei são os legisladores. A Disney quer mudar a lei de copyright, pois não quer que suas obras entrem no domínio público. Pra se tornar legislador, você precisa gastar muito dinheiro na campanha. A Disney financia a campanha de deputados e senadores. Os legisladores são eleitos. A lei é alterada, extendendo monstruosamente o período de proteção. A Disney fica feliz, o legislador fica feliz, e o modelo continua se alimentando.

O sistema no qual Maluf cresceu, a política, possui uma estrutura de poder bem diferente da ciência, de onde Nicolelis surgiu. A forma de se conseguir poder e as recompensas do poder são diferentes, então as criaturas agirão de forma diferente.

Como Zimbardo disse no TED de 2008, “se você quer mudar uma pessoa, você tem que mudar a situação. Se quiser mudar a situação, você tem que saber onde o poder está localizado no sistema.”

A arquitetura da instituição molda nosso comportamento, e nós agimos dentro desses limites.

Quem já jogou RPG sabe que se lhe é atribuido um papel, você se comporta de acordo com as características dele.

Então, da mesma forma que uma instituição pode ser uma verdadeira plantação de bandidos, cultivando hábitos e comportamentos escusos, nós também temos instituições cujos modelos estimulem o bem, incentivem as pessoas a serem heróis.

Uma homenagem aos cientistas, cortesia do xkcd.com

 

Bora prender os guardas?

No experimento, nem todos os guardas eram abusivos e maltratavam os prisioneiros, mas os guardas bons não se opuseram em nenhum momento contra os abusivoss. Eles foram cúmplices passivos.

Da mesma forma, em nosso cotidiano, nós presenciamos muitas falhas de terceiros e eles testemunham as nossas, mas preferimos ficar num pacto de silêncio do que gritar que o rei está nu.

Mas também não resolve apenas apontar o dedo para alguns indivíduos que são flagrados em delito, enquanto a fábrica de bandidos continua em plena produção.

O que deve ser denunciado é o sistema que permite que o guarda seja abusivo.

O experimento terminou depois que uma psicóloga viu os abusos, ficou chocada, e disse para Zimbardo que ele tinha deixado de atuar como psicólogo e estava atuando como superintendente de uma prisão, e por isso estava fazendo garotos sofrerem.

Não adiantava trocar os guardas.

Os sujeitos devem ser punidos se cometem algum crime, sim. Mas se o sistema continuar o mesmo, é como enxugar gelo. Ficamos numa contagem regressiva esperando o próximo escândalo.

0 Comments on “Plantação de Bandidos e Heróis”

  1. O poder legislativo (não apenas no brasil) é normalmente visto com desconfiança pela população. Escândalos sobre corrupção, de tão frequentes, não nos instigam mais à ação.
    Quando estamos em época de eleições tento votar nos que tem o histórico melhor: menos processos e mais obras concluídas e funcionando. Mas fica um sentimento forte de que estou apenas tentando aplicar a lei do menor dano: trocando uma droga pesada por outra de menor impacto (no orçamento público).
    Fica a dica para os que ainda insistem em votar: leiam mais sobre política e guardem links de notícias boas. Sugestão de leitura:
    http://atitudesempre.com.br/novidades/conhe-a-os-senadores-mais-baratos-da-rep-blica_2176.html

    1. Telmo,

      Pelo menos você faz esse tipo de pesquisa antes de votar. Deixa os outros contribuintes orgulhosos e felizes.

      Cuidado para não sofrer uma crise de abstinência, se um dia ficar sem essas drogas.

  2. O lance é que o poder legislativo brasileiro é o mais inútil de todos os tempos. Aprova duas leis por ano, e o resto é emenda ao orçamento. De resto, conversa fiada, CPI que não serve pra nada e holofotes.

    Mas o sistema tá aí. Só um político foi condenado por crime, em toda a história da democracia brasileira.

    Cadê a psicóloga pra mandar o Zimbardo fechar a clínica agora?

  3. Como diria Pero Vaz de Caminha, nessa terra, se plantando, tudo dá. Afinal de contas, ervas daninhas também dão em terra boa. O negócio é ceifar logo cedo os Malufs que brotarem antes que criem raizes e se multipliquem.

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