Porque eu sou o eleitor-tipo mais importante do Brasil

Já votei no Serra, já votei no Lula, sou bastante bem informado sobre política, história, campanhas de comunicação e estatísticas. Posso mudar de lado quando eu quiser, o voto é livre.

Como funciona a democracia?
Em suma, querido petista aguerrido e adorável serrista de carteirinha, funciona assim: cada um dá a sua opinião, soma-se, e o vencedor leva o bolo por quatro anos. Ninguém tem a obrigação de eleger ninguém, e a sua opinião, bem, ela é só sua.

É meio chato quando alguém me olha com aquela cara de “idiota, você está votando errado“. Dá uma vontade de explodir o cerumano que joga um comentário desses, ou de votar no adversário por pirraça. Deve haver muita gente que faz isso.

Gente que ao invés de tentar me convencer, esclarecer as minhas dúvidas ou debater algum problema/questão/whatever, tenta me convencer com lição de moral, musiquinha ou chavão. Não vai, cara. Primeiro me escute.

Na maioria dos países democráticos, há dois partidos: 1 e 2. Tradicionalmente, cada um deles tem uns 30% dos votos garantidos. Na Espanha, por exemplo, é assim. No fim das contas, um militante do PT há 20 anos vota na Dilma ou no Humberto Costa ou em qualquer outro nome que o partido indique para a presidência. Um peessedebista, um demo, o que for, vai votar na coalizaão, de qualquer maneira, ou como diria o Vicente Mateus, haja o que hajar. Quem decide a eleição mesmo é o partido dos variantes, que ora pende para um lado, ora pro outro.

Ser indeciso é mau sinal, né não?
Já falei. Cada vez que você me ofende, menospreza ou tenta diminuir a minha capacidade de raciocínio, maior a probabilidade que eu vote pro outro lado, só pra contrariar.

Cada ano escolher um candidato diferente não é indecisão. É não ter ideia fixa. É perguntar: “hoje, quem seria melhor para governar o país/estado/cidade/condomínio?”, e entender que o mundo muda, e que as pessoas são diferentes, e os planos das pessoas muda com o tempo. Lula em 89 queria decretar moratórias, brigar com o FMI, sei lá que outras atrocidades econômicas. Em 2002, ele pagou toda a dívida brasileira com o FMI. Ou seja, se um candidato muda, um eleitor também pode mudar, não?

Preto no branco: vamos parar de pensar assim?
O problema dos fanáticos é que estão sempre pensando que são os bons e os outros são maus. Far-west. A Força contra Darth Vader. E não entendem que está tudo muito misturado, que nem um lado é o fim do mundo e o outro não é o céu. Sarney e Collor estão juntos com o PT. César Maia, com o PSDB. Não há mais vestais. Não me venham com papinho de que o outro lado é o demo, por favor.

Tenho amigos que estão fazendo de cabos eleitorais pros dois lados. Gente que não quer ver o Serra nem pintado de ouro. Gente que não quer ver a Dilma nem pintada de ouro.

Aí você pega os dois lutando contra o regime militar, os dois participando em governos que levaram o país pra frente, os dois aliados a gente que representa o atraso, e os eleitores dos dois discutindo besteiras.

Serra vai mesmo privatizar a Petrobrás? Dilma vai mesmo comprar de volta a Telemar? Serra vai mesmo acabar com o Bolsa-Família? Dilma vai mesmo acabar com os genéricos?

Terceira-via
Aí por isso vemos tanta gente votando na Marina, verde e evangélica. Quando tento explicar as eleições brasileiras à namorada portuguesa, realmente vejo o quão absurdo, nonsense e surreal é o sistema político brasileiro. Não é possível, na Europa, encontrar um partido verde aliado aos evangélicos. Não dá. É igual a um sargento do exército no MST.

Mas a terceira via representa pessoas que estão interessadas em discutir ideias. Em outras propostas que não dois partidos que querem a eliminação do outro. Entendam: o PT nunca vai acabar com o PSDB e vice-versa. Dentro deste universo, os dois precisam um do outro. São Jacob e o homem de negro. Se um acaba, o outro também.

Entretanto, os dois querem acabar-se.

Certo tava Seu Lunga que dizia que é tudo farinha do mesmo saco
Não conseguem entender que há um grande número de brasileiros que não quer o fim de nenhum dos dois. Que acha que deve haver um consenso maior entre lado A e B, para tirar o petróleo do fundo do mar. Fica um lado #mimimi Indio da Costa e o outro lado #mimimi Michel Temer.

Copa do Mundo?
Nessas horas a gente comprova que Pelé estava certo: brasileiro não sabe votar. Ou, como dizia Lima Barreto, Brasil não tem povo, tem público. Os dois lados, “mais politizados”, querem mais é ganhar a eleição. Levar a Copa do Mundo pra casa. Nada mais que isso.

Ninguém quer discutir a escalação do time (“só dizemos quem serão os ministros depois de ganhar, antes dá azar”), quem vai jogar em que posição (“depois que tivermos o Congresso, loteamos a Esplanada”), nem o que vão fazer (“treinamos chute a gol, melhoramos a escola, ou mandamos todo mundo melhorar o preparo físico?”). Ninguém tem a menor ideia de como Dilma quer transformar o ensino de Comunicação em algo menos idiota, nem no que Serra vai fazer pra impedir que as drogas continuem chegando do exterior, nem como melhorar a máquina pública para oferecer serviços eficientes.

A eleição mais ridícula de todos os tempos
Este ano, a eleição para presidente é a mais parecida às eleições da Paraíba que eu já vi, em todos os tempos. E bem, eleições na Paraíba são aquela piada, né?

A diferença é que na Paraíba, não há indecisos. É 48% pra um lado e 48% pra outro, sempre. O resto, depende de quem pagar mais.

Tenho medo que as eleições para presidente fiquem assim, e não haja mais espaço para os céticos, para os cínicos, para os que, como eu, mudam de opinião e estão abertos à possibilidade de mudar de voto segundo o que cada candidato possa prometer ou pense fazer.

Este ano, é difícil mudar de voto porque ninguém pensa fazer nada, ninguém promete nada. Um lado acusa o outro, e os dois me acusam de não ter partido.

Está tão fácil que o lado que parar de me acusar primeiro, ganha.

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