Desaprenda seu MBA

No mundo de tecnologia, tal qual nos outros, vários mitos são criados e tornam-se fonte de inúmeras fantasias.

A força deles vai aumentando de acordo com sua recorrência, e em alguns casos passa a ser tão grande que tentar quebrar qualquer um causa muito desconforto e resistência. Tentar parti-los pode ser um exercício de perversão.

Pode ser que a personalidade de David Heinemeier Hansson não seja exatamente perversa, mas nessa palestra podemos notar claramente sua alegria e prazer em combater, enfrentar e nocautear alguns desses mitos.

O título da palestra, por si só, mostra que ele não se formou em diplomacia.

Desaprenda seu MBA

Alguns dos golpes:

  • Ele estima que 96,7% do que ele aprendeu no MBA ou não serviu para nada ou causou algum dano. E os 3,7% aproveitáveis? “Compre por um dólar, venda por dois”. Você tem que fazer com que sua empresa seja rentável para que ela sobreviva.
  • Criar planos com previsão para cinco anos são um exercício de futurologia
  • O seu cliente não vai pagar mais se você completou o Seis Sigma. Nem ele vai deixar de comprar, se você não o fez.
  • A linguagem que você aprende no MBA’s é diferente da linguagem humana, e se torna um obstáculo para a comunicação. Um exemplo, logo aos 7’35” do primeiro round:

This is Domino CEO David Brandon talking a few days ago, “The weakness in our value chain with the customer was really in our core product”  What? What does that even mean?  Well, I tried to translate that into human. And what I came up with is, “Well, let’s be honest. Our pizza used to suck. I’m sorry. I swear the new ones will be better.”

Outras verdades que foram parar no hospital:

Eu preciso de Capital de Risco (ou Venture Capital, pros fluentes em startupês) para que minha empresa vá pra frente

  • Você estará gastando dinheiro dos outros, e isso sempre afugenta a eficiência.
  • Com o dinheiro dos investidores, fica muito mais difícil de comprovar que sua idéia/produto não presta. Você perde a capacidade de abandonar o navio afundando, e está fadado a perder muito de seu tempo.
  • A hierarquia de prioridades da empresa fica esculhambada. Quando você está gastando seu dinheiro, você tem que ter um produto que funcione e que gere dinheiro pra garantir que você quitará seu aluguel. Com um investimento externo, você passa a se preocupar mais em aparecer na mídia do que em fazer seu produto funcionar.

É preciso trabalhar 21 horas por dia para que a empresa vá pra frente

  • Isso era verdade na era industrial, onde se você martelasse por mais duas horas produziria mais produtos. Na área de tecnologia, o que importa são as boas idéias que vem de uma mente descansada.
  • Quantidade de trabalho em excesso compromete a qualidade do trabalho. Você se torna uma galinha degolada, andando em círculos.
  • Ele cita seu próprio exemplo: ele criou o produto de maior rentabilidade da empresa dele dedicando 10 horas por semana durante 6 meses.

Eu durmo somente 4 horas por noite, e assim produzo mais que os outros

  • Normalmente esse tipo de balela está atrelado ao argumento anterior, e sua contradição também vai pela mesma linha.
  • Ao dormir pouco, você só estará comprometendo a qualidade de seu trabalho no dia seguinte. Um cérebro perturbado pela falta de sono vai produzir caca, grandes cacas, que vão atrapalhar muito mais do que ajudar.
  • E você realmente não se lembra que a privação de sono é um método bem eficiente de tortura? (ele não cita esse argumento, mas não resisti à tentação de enxertá-lo).

Uma pequena empresa deve seguir o modelo das grandes empresas, pois foram as que deram certo

  • Você nunca vai conseguir desbancar a Microsoft ou o Google em número de horas de programação para resolver um problema. Então não adianta enfrentá-las batendo de frente. Elas vencerão.
  • Até hoje, na empresa do David, todos executam e trabalham no operacional, não há ninguem que só gerencie. “When you have actual managers, whose sole job it is just to manage, they make up shit to manage because you’ve got to fill an eight-hour day” (isso me lembra o Princípio Dilbert)
  • A atenção que as empresas grandes dão ao faturamento pode atrair mídia, mas não significa que ela seja mais rentável que inúmeras empresas pequenas.

E quem é ele para falar assim? Ele dá algumas credenciais no início da apresentação, então façam o favor de ir lá e assistir.

É claro que uma palestra assim assusta e atiça muitas resistências. Mas mesmo assim, é sempre recompensante ver alguém se levantando contra unanimidades.

0 Comments on “Desaprenda seu MBA”

  1. Ainda bem que eu não fiz MBA. Cê viu que no Triiiibes tá rolando uma discussão sobre se a educação superior é uma bolha?
    Galera tá super preocupada nos USA.

    1. Tarrasko,

      Faz muito tempo que não entro no triiiibes, mas à noite vou revisitar.
      Eu já vi muitos posts e notícias falando do problema do crédito pra educação superior de lá, e das dívidas perpétuas.

  2. Ainda bem que eu não fiz MBA. Cê viu que no Triiiibes tá rolando uma discussão sobre se a educação superior é uma bolha?
    Galera tá super preocupada nos USA.

    1. Teófilo,

      Eu não acredito que toda educação superior seja uma bolha.

      A história dos créditos estudantis, lá nos EUA, eu acho sim que já ta prestes a estourar.

      Agora tem outros problemas (principalmente na nossa educação superior) que mais parecem com calos. Incomoda bastante e é bem difícil de tirar! 🙂

    1. Teófilo,

      Eu não acredito que toda educação superior seja uma bolha.

      A história dos créditos estudantis, lá nos EUA, eu acho sim que já ta prestes a estourar.

      Agora tem outros problemas (principalmente na nossa educação superior) que mais parecem com calos. Incomoda bastante e é bem difícil de tirar! 🙂

  3. Concordo com o texto.
    Esse tipo de visão está cada dia mais clara e muitas pessoas já notam a sua veracidade.
    Que pena que o ensino superior não é mais uma unidade que formava princípios, ensinava filosofia e valores pros alunos.
    Quando discutimos valores, motivações, pensamentos diferentes forçamos as pessoas a refletir sobre o papel de cada um na sociedade.
    Parece clichê mas é bem nessa.

    Cada vez mais se pensa na carreira e produção e menos no valor do trabalho e da contribuição social.
    Não é a toa que as coisas estão como estão.

    1. Gustavo,

      Apesar do post ter deixado transparecer o contrário, eu não acho que o ensino superior seja inútil. Eu reconheço que ele tem suas falhas, mas creio que é necessário uma forma de reafinar ele. Me parece que é isso que você tá propondo/reclamando, né?

      Agora teve uma coisa que me deixou curioso, e acho que vai dar muito pano pra manga, então vou te pedir um favor: cita algum exemplo de um caso em que se pense mais na carreira e produção, e outro exemplo de uma educação que valorize mais o trabalho e a contribuição social.

      Abraços

  4. Gustavo,

    Apesar do post ter deixado transparecer o contrário, eu não acho que o ensino superior seja inútil. Eu reconheço que ele tem suas falhas, mas creio que é necessário uma forma de reafinar ele. Me parece que é isso que você tá propondo/reclamando, né?

    Agora teve uma coisa que me deixou curioso, e acho que vai dar muito pano pra manga, então vou te pedir um favor: cita algum exemplo de um caso em que se pense mais na carreira e produção, e outro exemplo de uma educação que valorize mais o trabalho e a contribuição social.

    Abraços

  5. Concordo com “quase” tudo!…Sobre o “golpe do MBA”, será que ele realmente aprendeu algo? Será que ele escolheu o curso certo, ou seria o caso do engenheiro que trabalha na área de compras e fez um MBA em Finanças?…Ou ainda, será que era o momento de sua carreira para fazer um MBA?…um recem formado que ainda nao tem a bagagem academica ou profissional para absorver e aplicar os conhecimentos? Isso tudo tem que ser avaliado. E fazer MBA nao é apenas “conhecimento”…tem o network, tem a troca de experiencia…conhecer novas ferramentas de outras empresas….E um ponbto importante: onde ele fez o MBA? Fazer um MBA na “Faculdade do Seu Joaquim” apenas para dizer que tem um titulo, pode ser um tiro no pé…

    1. Armond,

      Eu acho que o principal mito atacado na apresentação dele foi a questão de se pensar que um só modelo serve para todos.

      Ele fala que nem todas empresas precisam querer se tornar uma IBM, uma Vale.

      Ele reclama do MBA por ele replicar um tipo de mentalidade: pegue sua empresa de quatro funcionários, aplique todos os modelos de adminitração e gestão que a IBM aplica, e sua empresa vai crescer e se ir pro topo da Forbes.

      Eu nunca fiz um MBA, então só posso falar pelo que escuto de amigos e empresários, mas estão bem de acordo com o relato do vídeo.

      Sobre o que você comentou, eu concordo plenamente. Todos esses são fatores que vão influenciar na avaliação que ele teve do MBA dele.

      Você já fez um MBA?
      Como foi a experiência, como você avalia?

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