Guardado por deus, contando o vil metal eletrônico

 Acho massa que no Brasil só se faz lei retroativa. Ninguém quer consertar os problemas do futuro, só os que a gente tinha. (“Vamos consertar a escravidão dos africanos, no futuro a gente pensa na escravidão dos bolivianos, quando isso virar um problema.”) Aí a lei é feita pra criar um efeito dominó que vai foder mil outras áreas.

Nesses dias, o pessoal do sul está discutindo a mudança ou não de uma lei brasileira que pode vir a proibir a escrita de biografias – aparte: odiei escrever essa frase – e um monte de celebridades artísticas começou a dar pitaco e disse-me-disse e tchans.

Só que ninguém pensou nas duas coisas mais importantes.

Número 1: Só tem celebridade velha dando opinião?

Imaginem o cenário: é 2030, o Brasil, sexta economia do mundo, um dos países mais injustos e desequilibrados, mas em vias de crescimento, está às vésperas de uma eleição na qual a REDE vai disputar com o PROS a Presidência da República (é um cenário hipotético, todo mundo sabe que os nomes de todos os partidos vai mudar daqui a 20 anos).

Um jovem jornalista, nascido em 2004, resolve escrever a biografia do cantor candidato a presidente, subvenciado, obviamente, pelo pastor-presidente da República. O cantor não quer que seus podres venham à tona.

Vocês ainda não viram o erro?

O cantor presidente da república normalmente tem entre 45 e 60 anos. Por lei, ele não pode nem ser menor de 35, sábia? Significa que o cara deve ter nascido em… 1985. Exatamente, 85 do século passado.

Não vai ser necessário publicar os podres dele, qualquer computador vai ser capaz de vasculhar os lixos espaciais de todas as redes sociais e encontrar whatsapp fodendo, bêbado fazendo duckface no facebook, falando vitupérios racistas no twitter e mil outras formas de ócio destrutivo que vão inventar daqui pra lá.

A privacidade morreu pros anônimos, cêjura que os famosos vão ter direito a esconder os podres?

Tente outra vez.

Número 2: Vocês ainda acreditam na censura?

Tem nego batendo punheta pro xvideos no Irã, hoje. Você acha mesmo que é possível proibir um livro em 2013, no Patropi?

Baixa o pdf da biografia, hospedado num servidor da Eslovênia. A Folícia Pederal vai pegar? Eles não sabiam nem que o Obama tava vendo os Snapchats da Dilma.

Falando sério (cês achavam que eu acabaria este texto sem uma citação obrigatória de Roberto Carlos?), os livros de papel estão morrendo. Então, amigo, o que impede que um autor brasileiro publique um livro eletrônico nos Estados Unidos, na já citada Eslovênia ou em Sealand?

Daqui a 5 anos, o dinheiro dos livros vai vir do formato eletrônico. E se você é desses ~fetichistas do papel~, fique na sua e volte pro seu tocador de elepê.

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