O Mertiolate dos Traumas

Uma das principais formas de aliviar o sofrimento de alguém que acabou de passar por uma situação traumática é perguntar o que houve, pedir que ela fale sobre o ocorrido.

O pobrezinho precisa falar pra amenizar o sofrimento. Só narrando a história ele processa as emoções, o que lhe protege de problemas maiores no futuro.

Pelo menos isso foi o que aprendemos desde Freud, com sua psicanálise onde os problemas são causados por emoções reprimidas, recalcadas.

Assim como na primeira lei da termodinâmica (se você faz Engenharia, sorria!, esse parágrafo é todo dedicado a você), da energia psíquica nada se cria nem se perde, só se transforma. A energia do que foi experienciado de forma traumática pode ser alterada e moldada numa forma menos dolorosa.

Esse tratamento é realmente popular, quase intuitivo.

E assim como tudo que vovó me ensinou, é uma verdade indubitável.

Seria um grande choque se eu dissesse que pedir esse desabafo à pessoa que acabou de passar por um trauma não é bom?

Por mais contra-intuitivo que pareça, vários estudos demonstram que fazer um debriefing (termo técnico para uma conversa semi-estruturada) sobre o trauma que alguém acabou de experienciar é danoso para a recuperação dela.

Ao pedir pra alguém falar de uma experiência traumática, você pede pra ele reviver o que acabou de acontecer de ruim. É como colocar um dedo na ferida. Ela demora mais para sarar.

Não é que ele é um placebo e não tem efeito benéfico.

Ele efetivamente faz mal, piora. Quem passa por essa entrevista num período curto após o trauma apresenta mais transtornos psicológicos no futuro do que quem não passa. É como se enfraquecesse as fundações que suportariam o peso do trauma.

Pra validar ainda mais essa afirmação, desde 2004 a Organização Mundial de Saúde recomenda explicitamente que essa técnica não seja usada no auxílio às vítimas de catástrofes (na época, pra proteger as vítimas da tsunami na Indonésia).

E como ninguém notou isso?

Esse é uma outra surpresa bem interessante, por envolver uma mistura de características do fenômeno traumático, do tratamento, e da própria vítima do fenômeno.

Quem sofreu o trauma é consultado sobre a eficiência do debriefing comparando seu estado nervoso em momentos diferentes: quando acabou de passar por uma experiência traumática, e muito tempo depois do trauma.

Pelo processo natural de cura, é certo que ele estará melhor do que no momento do trauma. A grande diferença, que foi detectada nos estudos, é que a cura neles não foi tão boa quanto no grupo que não passou pela entrevista.

E aí está o motivo disso demorar a aparecer: como o sujeito, sozinho, concluiria que poderia estar ainda melhor? Como ele pode definir que está menos melhor do que poderia estar? Com qual patamar ele se compararia, pra saber que não fez bem?

Quer dizer que o melhor é não falar nunca do trauma?

Tudo bem que sua intuição tenha se retorcido, fique não saia generalizando.

Todas essas descobertas, que conheci através do Mind Hacks, servem somente para o momento logo após o evento traumático, um tipo de primeiros-socorros psicológicos.

Depois que o trauma já passou, a história volta ao normal, ao que acreditávamos antes. O ato de falar sobre o que se passou volta a ser terapêutico.

Esse debriefing, condenada para o uso no primeiro momento, continua sendo das mais eficientes ferramentas depois que passou o calor da batalha.

Falar ainda é muito bom e saudável. Mas nem todos precisam elaborar imediatamente após um evento difícil.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *