Se você quer estabilidade na carreira, busque o desequilíbrio

Este post é a minha opinião sobre algumas dúvidas que algumas pessoas que estão começando a vida profissional em publicidade no Recife têm e com uma frequência assustadora me perguntam, questionam, e o que é pior: se angustiam. Se você se identifica, não se preocupe. É normal.

Você tá em Recife. É junior, ou seja, ainda tá na universidade ou está quase acabando, mas trabalha já há um ano e pouco, mais de oito horas por dia, tem olheiras, pouco tempo, pouco fígado, muita internet e vontade de ver o que há no mundo exterior.

Começa a pensar que tem que planejar a sua carreira, decidir o seu futuro, para não casar, criar família e ter menino.

Moro em Recife e quero trabalhar com propaganda. Mas eu quero ir morar fora, conhecer o mundo.

Simples, pô. Vá conhecer o mundo. Lembre-se que conhecer o mundo é caro. Vejam a música do post.

Mas pô, as agências em Recife pagam pouco, e o curso da Hyper Island custa 30 mil dinheiros. Será que um dia vão aumentar o seu salário?

Infelizmente, as universidades de publicidade não ensinam enconomia. Se ensinassem, você aprenderia que o responsável pelos aumentos do seu salário é vocêzinho. Ninguém vai aumentar por você, por decreto ou ordem do governo.

Em Recife, é normal que se pague pouco. Chama-se tradição escravista, que vem da época da fundação de Recife-Olinda, aproximadamente. No dia em que uma agência diga que não faz anúncio de homenagem, essa porcaria acaba.

E como eu ganho dinheiro?

Faça seus clientes ganharem dinheiro. Faça o seu chefe ganhar dinheiro (se ele ganha dinheiro com prêmios, é aí. Se ele ganha vendendo mais, é aí). Arrume freelas. Venda o corpo. Aprenda a fazer outras coisas que dão dinheiro (investir na bolsa, escrever textos para content-farms, blogar em idiomas estranhos).

E se eu não ganhar dinheiro?

Dica 1: Informação é dinheiro. Informação é o processamento mental de dados. Ou seja, você pega dados por aí (na internet tem bilhões de coisas) queima neurônios até chegar a uma ideia bacana e pode ganhar dinheiro. É o método mais comum, mas que necessita algum trabalho.

Dica 2: O outro método envolve que alguém te dê dinheiro. As pessoas só dão dinheiro em troca de algo, até mesmo os seus pais. Eu recomendo o método 1. Costuma ser menos complicado.

É obrigatório sair do Recife para ser um grande profissional?

Não, e taí um monte de gente que nunca saiu e não me deixam mentir. O problema é que ser júnior é uma merda em todo canto, mas que no mangue sofre-se mais. A diferença é que aí, os grandes criativos lutam por um bom orçamento, e em mercados maiores, a preocupação de diretores de criação é com a qualidade do produto. A briga por dinheiro, que no começo da carreira é pra poder pagar o aluguel ou o busão pro estágio, se transfere para brigar com o cliente por duzentos reais a mais pra poder fazer o anuncio colorido ou pagar uma revisão ortográfica.

Há milhões de opções de cidades para trabalhar com publicidade. E por isso é tão difícil decidir pra onde ir.

Pergunte à galera da Argentina (tem um monte de pernambucanos lá), aos de São Paulo ou aos do Timbuktu: todos podem dizer vantagens e desvantagens de estar em cada um deles, e eu posso listar umas cinquenta razões para não ir pra Londres, só porque sou um pessimista inveterado.

A minha dica é: não procure um lugar perfeito. A minha cadeira já está ocupada. 😉

Eu quero morar fora, mas também ganhar dinheiro, prêmios e ter duas strippers na minha sala de trabalho.

Eu também, jovem gafanhoto. Eu também.

Mas isso não acontece. Mudar de cidade é uma merda. Você vê profissionais mega-gabaritados, famosos e premiados literalmente passando fome no exterior, passando anos longe da família (não piso no Brasil há três anos, e quase certamente completarei quatro), convivendo com idiomas extrangeiros (ontem me disseram que eu estou falando português rápido demais, influencia do espanhol, e por isso estou ficando com uma dicção incompreensível), ou até mesmo uma falta de raízes, que me dá vontade de voltar a Madri do mesmo tamanho da de voltar a Recife.

Enfim, se você se foca nas desvantagens, vai encontrá-las em qualquer lugar. O importante é focar nas coisas boas, porque você sempre terá vontade de voltar. Aprenda a viver com os problemas, e aproveite as coisas boas. Hakuna Matata, lembra?

Mas se eu for capaz de me conformar em qualquer lugar, eu posso ficar na casa da mamãe, não?

Pode. Aliás, família, caldinho de carangueijo e saudade são as principais razões pelas quais alguém se forma no Recife e continuam trabalhando aí. Os que ficam em Madrid são: Malasaña, La Latina e Lavapiés, não necessariamente na mesma ordem.

Você escolhe uma cidade para viver por razões não-profissionais.

Será que eu só posso ser um grande profissional se me formar na Hyper Island?

Não necessariamente, mas você será um profissional Hype caso se forme lá (pun intended). Você pode estudar na Miami Ad School, na Cuca ou na Complot, ou na escola da vida, que formou o Lula. Há mil e um caminhos, e o único caminho errado é você seguir outra pessoa. Porque estamos falando de propaganda, e você aprendeu, no segundo período, que o segundo a se posicionar perde, né?

E agora?

E agora você começa a pensar, discute, planeja, começa a fazer e vai vendo. Ao contrário de muitas carreiras tradicionais, que são como corridas de carros, num circuito, a carreira de publicidade é como uma corrida de barcos, de longa duração. Você não tem caminhos, não tem estradas, não tem rota. Só precisa navegar, na direção que quiser. Pode até nunca sair do porto, e ser muito feliz trabalhando de prático. Ir para os grandes continentes. Conhecer somente pequenas ilhas. Fazer cruzeiros por lugares conhecidos ou expedições para lugares desertos.

Navegue.

 

0 Comments on “Se você quer estabilidade na carreira, busque o desequilíbrio”

  1. Pode colocar nos murais da faculdade, enviar para os júniors ou colar na agenda.
    Tudo isso tá valendo.

    1. Estou tentando seguir a linha do articulista mais elogiado deste blog, o danado que quase ninguém acredita que não trabalha com comunicação. 😀

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