A maravilhosa língua portuguesa do Brasil

A coisa mais difícil para explicar a um não-nativo sobre o nosso Português é a nossa capacidade de dizer uma coisa com outras palavras completamente diferentes. Ou seja, dizer uma coisa querendo dizer outra. Não se trata de eufemismo, mas de contraditório, de algo que não tem nada a ver.

Estou lendo uma entrevista e uma celebridade muito rica diz:

Sempre tive um interesse pelas pessoas simples.

Não, meu vei. Você quer dizer que você gosta de pobre. O que é incoerente, porque você nem consegue usar a palavra certa para designá-los. Um milionário que vai viver no Tibet é simples. O Steve Jobs, que sempre vestia a mesma roupa e fazia as mesmas coisas todos os dias, era simples. O Dalai Lama é simples. Um pobre que tem três trabalhos, quatro filhos e duas famílias para sustentar é tudo, menos simples.

É, mas não é

É bem frequente, quando estou explicando o significado de um texto a um estrangeiro no trabalho, ou até mesmo a um nativo-mas-não-muito (trabalho com muita gente que domina o português fluentemente, mas não é a primeira língua deles), que aquilo que eles estão dizendo é correto, mas também não é. É outra coisa, normalmente com duplo sentido pornográfico.

Aliás, praticamente tudo no Português brasileiro é pornográfico, se você parar pra pensar bem.

E qual é a origem disso? As outras línguas também não são assim?

Eu não sei, mas desconfio que é algo bem brasileiro mesmo. Os portugueses não veem malícia em tudo, os espanhóis são bem mais liberais com palavrões e os americanos fazem trocadilhos por tudo, mas acho que só a nossa variante da língua é esquisita desse jeito.

E por esquisita, eu usei a mesma figura de linguagem da citação no começo do post. Eu queria dizer mentirosa, mesmo.

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