Meninas da gare

Artigo publicado no Jornal Contraponto, de João Pessoa, Paraíba.

“Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha” *

Queria falar de direitos de autor, mas achei melhor reler o manifesto antropofágico. Eis o que sobrou:

Com o fim da era da reprodutibilidade técnica de Walter Benjamin, chegamos à era da reprodução obrigatória. Tudo, no mundo das artes, será copiado, refeito, reescrito, remodelado e remixado. Não se sabe qual é a fronteira entre o que pode e o que não se pode fazer, mas que, no final, a cultura vai se canibalizar, criando uma grande mistura, cujo produto é impossível de ser previsto. Estudando história da arte, vê-se que já aconteceu antes, e que seguirá acontecendo.

Fulano, em seu último disco, cita uns versos de Sicrano, mas este, “ó, vaidade das vaidades”, o processa, porque teve o sentido adulterado. O cantor resolve então responder, com um artigo de jornal, dizendo que “há entre o céu e a terra mais coisas do que supõe a tua vã e idiota filosofia, Sicrano”, e que a sua música era uma leitura irônica, que mudava o sentido de acordo com o contexto no qual foi escrita. A sociedade de direitos autorais está mais interessada “nos 30 dinheiros”, e resolve processar os dois. O juiz não entende como a lei chegou a este ponto insano onde ninguém parece ser dono de nada, mas todos devem dinheiro, e as idéias têm mais donos do que autores. “Meu reino por um cavalo, parem o mundo que eu quero descer!”.

Keith Richards, este baluarte do rock’n’roll e uma das pessoas mais influentes do pensamento do século XX, disse uma vez que as idéias estão no ar, são de quem pegar primeiro. E hoje, que as idéias consistem basicamente em juntar várias outras e mudar o sentido, deveriam ser de quem encontrar uma ligação primeiro, não?

Homero existiu? Virgílio plagiou Homero? Dante plagiou Virgílio? Bocaccio plagiou Dante? Se Bocaccio é o pai da língua italiana, podemos processar todos os ítaloparlantes por direitos de autor?

Há 50 anos, era difícil copiar um livro, quase impossível copiar uma música e completamente impossível copiar uma escultura. Hoje, tudo é copiável. Por que ainda não fizeram uma Vênus de Milo com braços? E colorida? E com “orelhas de foca, nariz de tamanduá”?

Criemos, pois. Copiemos, pois. Misturemos tudo, que no final, nascerá um monstro que comerá toda a arte e todas as idéias. E irá embora assoviando “it’s the end of the world as we know it, but I feel fine”.

* Oswald de Andrade, canibalizando Pero Vaz de Caminha

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