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Artigo publicado em 2008 no Jornal Contraponto, de João Pessoa-PB.

Se pudesse ter qualquer desejo realizado, hoje, desejaria dormir pelos próximos 5 anos. Já li e reli os arautos da modernidade, da comunicação, da futurologia. Já sei que coisas completamente banais e arraigadas na sociedade vão, num futuro brevíssimo, deixar de existir, tais como:

telefones fixos, jornais impressos, telediário às 8 da noite, horário fixo para programação na tv, rádio, CLT para profissionais alfabetizados, e um longo etc.

Mas sinceramente, estou de saco cheio da transição. O anúncio pede um profissional “capacitado, fluente em vários idiomas, que saiba manejar bem ferramentas de alta especialização para executar uma tarefa super-high tech”, e no primeiro trabalho, ele precisa explicar ao chefe, que tem 20 anos de carreira e um salário 8 vezes maior que o Facebook é uma empresa, que é uma empresa importante, que qualquer pessoa que decide deveria saber que existe, etc etc.

Fragmentação, quem decide o quê?
O problema da sociedade de informação atual é de níveis: que nível de informação eu posso mencionar num artigo neste jornal, que informações eu posso usar com meus companheiros de trabalho digitais, e que outras eu preciso traduzir, adaptar ou explicar para que os outros companheiros entendam?

Vai chegar um dia em que não será mais necessário explicar que a internet é o meio de comunicação por definição, que as velha regras da comunicação nem serão mais lembradas, que ninguém vai encher o saco lembrando clichês antigos, regras bizarras da propaganda dos anos 60 (“por favor, não comecem nenhum texto com palavras negativas”), nem vão me perguntar o que é o orkut.

Seria ótimo se tudo fosse como antes
Nada de mudanças, de transições, de alterações na realidade. Os livros contam como é o mundo. Os conselhos do seu avó continuam válidos.

Seria ótimo se tudo fosse como será depois
A tecnologia é aceita por todo mundo com menos de 60 anos. Não existem mais professores cuspidores de regra que dizem que “isso sempre funcionou assim, não vamos mudar”. A frase “é assim que as coisas são” é aposentada por invalidez.

O que é insuportável é a transição
Enquanto houverem equipes mistas, pessoas que vivem em uma década e o resto em outra, vai ser um inferno. Os que vão atrás da revolução, reclamando que tudo está mudando rápido demais, e não conseguem acompanhar. Os que vão no meio, com medo de perder o trem. Os que vão na frente, liderando, têm a sensação de estar puxando a carga, levando adiante o trabalho, fazendo a força que move a sociedade. E ninguém aguenta ser locomotiva por muito tempo.

Vou sentar e esperar o trem chegar
Por isso tudo, eu decidi dar uma pausa. Deixa a revolução chegar. Eu não vou mais tentar convencer ninguém que daqui pra frente tudo vai ser diferente. Quem quiser que aprenda a ser gente. O que eu quero é ser feliz e mais nada.

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