Pegadas, ou acho que vi um gatinho

Artigo publicado no Contraponto desta semana.

A privacidade acabou. Você tem uma amante secreta, tirou fotos da namorada nua, andou roubando por aí ou deu propina ao guarda? Tenha medo. Muito medo.

É impossível tirar alguma coisa da internet, da mesma maneira que é impossível retirar algo que você um dia falou. No máximo, como os valentões do colégio, uma pessoa pode obrigar o outro a “engolir o que disse”, tomar um murro ou um processo. Alguém acha que é mais difícil encontrar o livro proibido do Roberto Carlos agora que foi proibido? Não, está na internet. Um milhão e meio de brasileiros viram Tropa de Elite antes do lançamento. E por causa disso, é o filme brasileiro mais visto de todos os tempos.

O Príncipe Harry lambendo o mamilo de um amigo na internet, fotos da Paris Hilton pelada, o email com dicas de economia que a sua empresa mandou para centenas de funcionários antes de demití-los, aquele sexo gostoso na praia que vazou pra internet. E também não adianta negar. Não pode ser apagado, não existe maneira de impedir que as pessoas tenham acesso à essa ou àquela informação. Está lá e acabou-se.

Como reagir? Abandonar a vida online, ou continuar deixando pegadas por aí? Como se transformam as reputações das pessoas? Alguém que aparece em um vídeo xingando e ofendendo algum grupo há 20 pode chegar a Presidente? Com as c”meras digitais, há bilhões de pessoas tirando suas próprias fotos pornôs amadoras. Imagina receber por mail uma foto da sua sogra?

E os diários pessoais? Que são públicos? A eternização do cotidiano trás mais problemas que éramos capazes de ver quando fizemos nossos primeiros endereços eletrônicos, não?

Todos nós que temos uma mínima vida online sempre estaremos deixando marcas do que fazemos. Emails de piadas ou perguntas idiotas. Existe uma ONG americana que tenta salvar todas as páginas publicadas na Internet desde 1995, aproximadamente. Significa que a homepage da Openline em 96 está lá. Alguma piada que eu escrevi aos 14 anos pode voltar das profundezas do passado e destruir minha reputação de pessoa séria. Exceto pelo fato que ninguém que usa a internet é 100% sério.

A internet é como a linha do tempo. Não volta. E, sim, é fácil encontrar textos meus com palavrões na internet. Mas é mais fácil encontrar o Marco Aurélio Garcia fazendo o famoso gesto do top top.

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