Pergunta maliciosa, capciosa e sacana: vale a pena trabalhar de graça?

Tava falando com uma grande amiga, que trabalha em Sampa City, a cidade que nunca dorme. Nós dois já meio que saímos da fase de estagiar e trabalhar de graça. Ela, porém, está em SP, onde oferece-se estágio ou subemprego com vale refeição até pra quem tem prêmio em Cannes ou raio que o valha.

Aí venho eu, chato e rancoroso com o modelo publicitário, e pergunto: vale?

Tipo, seria genial, e eu pagaria para revisar os textos do Neil Gaiman, e aprender como ele tem aquelas ideias loucas. Mas, desculpa, trabalhar de graça pra escrever roteiro de comercial de sabão em pó? Ou pra clientes que não pagam?

Não sei, mas se a empresa não tem dinheiro pra pagar um estagiário, ou aumentar o salário, que não contrate. Negócio ruim, crise, vacas magras, a gente entende. Mas não venha dizer depois que é “uma das maiores agências do Brasil”. Pode ser, mas também em filhadaputice. Subempregar uma pessoa que gera um trabalho, que gera lucro para a empresa, e não pagar, é filhadaputice de primeira. É pagar com status. “Ei, tô estagiando na PXJ”. Sem ganhar nada. Sem aprender nada. Sem dormir nada. Comendo mal.

Há a desculpa de que a empresa forma o funcionário, porque as universidades não ensinam. Tá, concordo plenamente. Mas dava pra ensinar mais rápido? Tipo, os primeiros seis meses são pra ler anuário. Os primeiros quatro anos, pra aprender a fazer folder e rádio. Um recém-formado vai demorar uns 15 anos pra fazer seu primeiro anúncio pra televisão, sendo que nem vai existir televisão em 2024.

Aí lá vai você, egresso de escolas particulares, universidades federais, pós-graduado na ESQQ e com um curso de portfolio com aquele diretor de criação fodão que ganhou 17 leões, pedir dinheiro aos pais pra comprar passe de ônibus pra ir pro trabalho. Por anos e anos. Porque acredita na loteria de que tem talento suficiente para ser um dos 4 criativos do Brasil que ganham dinheiro de verdade, daqui a 20 anos.

A mesma probabilidade que se você fizer um plano VGBL decente num banco qualquer e trabalhar com algo que não gosta. Com a vantagem de dormir mais.

Tá, eu sei que fiz vestibular pra otário. Mas precisava gostar tanto de propaganda?

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2 Comments on “Pergunta maliciosa, capciosa e sacana: vale a pena trabalhar de graça?”

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