Proibida a entrada de equipamentos profissionais

Artigo publicado no Jornal Contraponto, de João Pessoa.

Há longínquos 10 anos, era praticamente impossível esconder uma equipe de imprensa. Uma c”mera capaz de gerar imagens em qualidade suficiente para televisão pesava muitos quilos e era maior que a cabeça do cinegrafista. Hoje, um telefone pode resolver o problema.

Há longínquos 10 anos, não se permitia a entrada de nenhum equipamento de gravação em tribunais, casas de shows ou zonas de baixo meretrício. Ainda valia o ditado de “What happens in Vegas stays in Vegas”. Hoje, não há absoluta privacidade em lugar nenhum. É possível gravar a orgia nazista de Max Mosley, o presidente da FIA, bilionário e tarado. E estas imagens chegarão à internet e ao olho de todo mundo. É possível gravar uma negociata no gabinete do ministro.

E para impedir? Lembram do James Bond? Nos seus filmes, alguém, com um scanner eletrônico fazia uma varredura de todo o corpo para verificar se algo funcionava, e detectava o microfone embutido.

Mas o doutor ministro vai impedir que o seu interlocutor, deputado ou rico empresário, traga um celular à reunião? Ou o notebook? Ou a caneta?

Vão me impedir de levar a minha c”mera a um show? É uma c”mera semi-profissional. Um fotógrafo é capaz de tirar fotos geniais com ela, melhor que muita c”mera top de linha dos anos 60. Mas é uma c”mera para amadores. E é das minhas fotos na rede que os grupos de música vivem, é desta publicidade. Não poderão impedir-me, nem revistar a todos os frequentadores de um concerto para 10.000 pessoas.

Os concertos hoje praticamente liberaram a presença de c”meras. Sabem que é positivo, que gera mais dinheiro a divulgação livre do que a tentativa de censura, que não vai funcionar, anyways.

E a vida pública? E a vida privada?

Ao parar em frente a qualquer monumento importante em qualquer lugar do mundo, perto de você há alguém fotografando outro alguém, e a sua imagem é captada pela c”mera. E será exibida no Japão, na Nova Zel”ndia ou em Cabrobó. E não há controle, não há fiscalização possível. A paranóia obriga a nunca por os pés perto da Vitória de Samotrácia ou aceitar que a sua imagem não lhe pertence e irá fazer parte das férias daquele casal do sul de Iowa.

Longe de mim querer apresentar a solução, prefiro mostrar o problema e esperar pessoas mais inteligentes tentarem trazer as respostas. Porém, não custa lembrar que as mudanças que estão surgindo são fatos, não podem ser mudados nem proibidos. Irão acontecer, porque a tecnologia permite. Nós podemos adaptar-nos e viver numa sociedade pós-público e privado, ou viver na paranóia de estarmos sempre sendo filmados e registrados, tentando voltar a um tempo bom que não volta nunca mais.

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