Ensaio sobre a cegueira na propaganda, parte 2

Cegueira regional?
É como o uso de expressões regionais em campanhas nacionais. Nunca. Never. Quando aparece, o gaúcho fala tchê, o nordestino fala oxente e o mineiro fala trem bão. É muito raro ver uma marca usar uma expressão cultural regional de maneira não-estilizada, mesmo considerando que há gente de todo o país em São Paulo. Ignora-se o poder de mobilização massiva de uma Joelma ou do forró cearense.

Com a honrosa exceção da Bahia, Nizan Guanaes e a indústria cultural de lá, nenhuma outra região brasileira consegue mobilizar a cultura do povo na propaganda. Eu acho que muito disso é porque, pra ser publicitário, é praticamente um imperativo ser moderninho, aspirar a ser londrino e esquecer que o povo não usa twitter, não sabe quem são os Artic Monkeys e odeiam frapuccino.

Seja educado

Seja educado com os vendedores.

É como quando um nordestino acha impossível que Lula ou qualquer candidato dele perca uma eleição. Todo o seu círculo social vota na mesma pessoa. Você pergunta pra um catarinense e ele faz cara de espanto. Não consegue entender que, nas últimas eleições na Paraíba, o candidato do PMDB e o do PSDB, inimigos opostos e declarados, apoiavam Lula.

Ou então dizer a um brasileiro que, na Espanha, pouquíssima gente considera Pelé o maior jogador de futebol em linha reta do mundo. Não é uma unanimidade escabrosa. Há discussão, há opiniões distintas, etc. No Brasil, não. Todo mundo acha que sim e pronto. É estranho divergir.

Medo de discordar dos cegos
Na minha opinião, o problema é o medo de discordar do seu grupo ao redor. De falar com um grupo com medo de não ser entendido por todos. Então falamos numa linguagem média, plana, sem sal e chata. Tipo gíria de surfista em anúncio da Veja, ou colocar arrobas no texto para mostrar que a marca é antenada. Aliás, antenada é a palavra mais corna da língua portuguesa.

No renunciamos a nada

Curso de narcisismo. Coisa que publicitário não precisa.

Ninguém tem coragem de dizer que a banda indie moderninha é um pé no saco quando está cercado de publicitários, de dizer ao cliente que está jogando fora dinheiro com aquele anúncio no jornal de maior circulação no estado ou dizer que salada é muito mais gostoso que carne humana para a sua tribo de canibais.

Como li outro dia, todo mundo tem a vontade de fazer o Gorilla da Cadbury, mas ninguém tem coragem de aprovar algo tão caro e arriscado.

Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer.

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