Videogame, possivelmente uma das coisas mais sérias do mundo

Artigo publicado no Jornal Contraponto, de João Pessoa-PB, em 2008.

Hollywood é uma região da cidade de Los Angeles, US and A. Aí ficam a maioria dos grandes estúdios de cinema do mundo, responsáveis pela hegemonia cultural americana no século XX. Movimenta uma quantidade de dinheiro brutal. É responsável pelo crescimento do estado da Califórnia, pelo charme, por atrair gente de todas as partes do mundo. É o motor de um estado que, se fosse país, seria o 3º mais rico do mundo. Só perde para a China e para o próprio US and A.

Pois a indústria do cinema, hoje, é conhecida como Hollywood. E esta é menor que a indústria dos videogames. Menor no sentido matemático mesmo. Ganha menos dinheiro. Simples assim.

Se resolvesse, de repente, dizer a meu pai, que é uma pessoa de cabeça aberta e que conhece mais ou menos como o mundo funciona, que vou largar a minha profissão para ser roteirista de videogame, acho que teria que explicar muito a decisão. Se explicasse que ia escrever um filme para Hollywood, creio que não haveriam tantos problemas. E por quê? Porque os filmes já são conhecidos pelos “adultos”. Entre aspas. Digo pelas pessoas com mais de 40 anos, que não tiveram acesso a videogames quando crianças.

Hoje, eu leio matérias sobre videogames com textos como “trilha sonora de verdade eram as de Koji Kondo em Super Mario World, que jogávamos em 1991”, do mesmo jeito que os adultos estão acostumados a escutar elogios aos filmes de John Ford ou à Era de Ouro de Hollywood. A maioria dos “adultos”, por nunca ter tido a experiência ou a aceitação dos videogames, não dá importância-valor-reconhecimento a esta forma de entretenimento, e as críticas são, normalmente, as típicas de quem não entende mesmo do assunto.

“É uma forma de evasão, de esquecer os problemas da realidade”; “Retratam uma violência e despertam desejos que os jovens não têm por natureza”; “distorcem a percepção da realidade”; “viciam”; “são contra os bons costumes, a moral, a família e a religião”; um largo etc.

No parágrafo anterior, críticas comuns ao cinema na época da sua criação, que também poderiam ter sido ditas por um censor na Ditadura, e que hoje são ditas por pessoas que nunca jogaram e por juízes em sentenças que proíbem a circulação de jogos no território nacional. Jogos que, por definição, vêm classificados para maiores de 18 anos. Há videogame para crianças. Mas eu não acho que um menor de idade deva ver um jogo sobre a 2ª Guerra com sangue, bombas e hiperrealismo, nem um jogo que envolva violência-crime-sexo-prostituição-máfia-etc. Nem um jogo, nem um livro, nem um filme. São, independente do meio, produtos de uma indústria cultural feitos exclusivamente para adultos. E hoje, cada vez mais, os adultos jogam.

E seguirão jogando. Haverá uma época (calculo que aproximadamente 2040) em que 90% dos adultos dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento terão jogado videogame. Simplesmente porque, quando eram crianças, já os havia.

Proibir um videogame é como proibir uma revista de mulher pelada. Se você sorriu ao lembrar que nos anos 60 conseguia ver uma, mesmo menor, vivendo numa ditadura e com todas as proibições do mundo, sabe que alguém vai conhecer alguém que tem um primo que tem o jogo. Agora imagine numa época em que há Google, Piratebay, torrents e milhões de maneiras de conseguir algo. E imagine também que proibir sempre cria a vontade de descobrir o porquê.

4 Comments on “Videogame, possivelmente uma das coisas mais sérias do mundo”

  1. Ótimo post!

    Essa coisa de contar histórias por meio de filmes começou lá atrás, quando nos reuníamos em volta da fogueira. Da forma oral evoluímos para a literatura, teatro, cinema…e os videogames são a próxima chave desse quebra-cabeça.

    Nada mais natural que tomem o lugar de Hollywood, ou que ambas as mídias comecem a trabalhar juntos.

    Antes de bater as botas espero ver várias coisas acontecendo, inclusive o dia em que os videogames baseados em filmes deixarão de ser uma piada pronta para estarem completamente integrados em termos de história, criando uma experiência completa.

    Quando passar pelo Brasil de novo me avise para tomarmos um café…

    Abraço,
    Bruno

  2. Post perfeito, Tarrask. Eu, como game designer, e que, portanto, faço parte desta indústria, concordo com tudo. Exceto pela previsão. Acho que antes de 2040 conseguimos essa façanha, apesar da Hilary Clinton e seu lobby pela censura dos jogos.

  3. Este é o post mais comentado por Brunos da história. 😀

    Vamos fazer os videogames dominarem o mundo.

    E logo depois, o RPG:

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