Hiperconectados, isso existe?

Artigo publicado no jornal Contraponto, de João Pessoa.

Este é o meu trigésimo texto para o jornal. Já vão 30 semanas falando de internet, tecnologia e coisas estranhas do mundo de hoje. Às vezes é bem difícil saber do que escrever, e que nível de conteúdo eu devo colocar aqui no jornal, que tem um público bem abrangente, e que a maioria não utiliza nem 50% do que a tecnologia atual permite. Mas eu tento explicar em palavras mais ou menos simples o que eu, um nativo do mundo digital, considero avançado, para pessoas que nasceram antes da revolução.

Arthur C. Clarke, o homem que previu os satélites, os computadores inteligentes e os elevadores espaciais (que ainda não foram inventados) dizia que qualquer tecnologia suficientemente avançada não pode ser diferenciada de magia. Eu sinto isso ao tentar explicar a pessoas razoavelmente bem formadas e informadas ações e usos corriqueiros da tecnologia para mim, e às vezes nem tento explicar. “Olha, num passe de mágica, eu tenho, todos os dias de manhã, resumos de todos os jornais importantes do mundo ocidental. Sim, tem Times, tem Clarín, tem The Onion e tem os artigos e colunas do Brasil, grátis e tal. Como? Ah, mágica.”

Segundo um estudo da Parks Associates e da IDC/Nortel, 16% da população dos países mais desenvolvidos do mundo são considerados hiperconectados. São os que não lêem mais jornal em papel, que fazem videoconferência o tempo inteiro, distribuem conteúdo (fotos, vídeos, opiniões) o tempo inteiro, mantêm contato com gente em todas as partes do mundo 24 horas por dia via celular, computador ou qualquer outro aparato. Vêem filmes on-demand via companhias como Hulu.com, interagem com as histórias, etc. Quase todos são nativos digitais, nasceram depois do microchip, e alguns são os velhos revolucionários que criaram tudo isso. Só quem trabalha com tecnologia, e mesmo assim, poucos, no Brasil entrariam nesses 16%. Eu chutaria em menos de 100.000 pessoas.

Logo depois deles, há um exército de 36% da população que está cada dia mais conectado, mas que vai aprendendo devagarzinho. Suponho que é neste estado que estão a maioria dos jovens de classe média-alta do Brasil. Ainda não há tecnologia de celular ou de cabos para permitir a massificação, e os preços ainda são bastante proibitivos. Na Europa e nos EUA, estes estão neste estágio simplesmente porque ainda não se interessaram em aprender.

Depois vêm as pessoas ditas normais. Que vêem email, acessam páginas de portais tipo Terra e UOL, um ou outro jornal, o blog do Noblat e sabem imprimir e escanear. É uma quantidade absurda de mão-de-obra e de cabeças pensantes que está fora de um mundo de possibilidades e tecnologia. São como as pessoas que aprendem as 4 operações e saem pela vida, somando e subtraindo, mas incapazes de uma regra de três ou entender a fração de uma porcentagem. E que poderiam estar produzindo, gerando e pensando muito mais.

O que eu acho maravilhoso nessa revolução digital é a capacidade de expansão. Uma pessoa expande conhecimentos, idéias e tecnologia muito mais rapidamente, e permite que esse interc”mbio gere ainda mais idéias. Por isso é que, no epicentro da revolução é onde acontece mais mudança, e sempre cada vez mais rápido. Como a célula que evoluiu de ameba até um cérebro humano, enquanto outras, distantes, separadas das outras, continuaram sendo amebas até hoje, 15 bilhões de anos depois da primeira diferenciação entre zero e um.

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